Viu Review - ml-livro

O Último Duelo

"O Último Duelo" não é um filme de ação, de disputas politicas ou religiosas, de traição ou violência - embora tenha tudo isso. "O Último Duelo" é um drama (profundo) sobre a verdade, mesmo que essa venha mascarada por um contexto de época onde a misoginia e o patriarcado significavam honra e virilidade. O roteiro escrito por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, é baseado em um livro sobre o último duelo judicial oficialmente reconhecido na França, mas que chega acompanhado por um subtexto atual e importante que ganha muita potência na mão (e na cabeça) criativa de Ridley Scott que resolveu contar a mesma história a partir de três diferentes perspectivas. 

No filme acompanhamos a história real de uma mulher francesa do século XIV, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), que desafiou os costumes medievais ao denunciar e levar a julgamento o homem que a violentou, Jacque Le Cris (Adam Driver), ex-companheiro de batalhas e desafeto de seu marido, Jean de Carrouges (Matt Damon). Confira o trailer:

Embora "O Último Duelo" tenha sido muito criticado por se preocupar mais em estabelecer a rivalidade entre Le Cris e Jean de Carrouges, do que pela luta por justiça de Marguerite em uma época em que a Igreja ditava as regras e um Rei simplesmente as aplicava de acordo com sua vontade, eu gostei e, sinceramente, não tive essa leitura - muito pelo contrário, o valor das circunstâncias que levaram ao duelo, para mim, são muito mais potentes do que as disputas carregadas de vaidade entre os personagens, porém Scott usa desse gatilho para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que cria pontos de reflexão sobre o ato sofrido por Marguerite.

Partindo do conceito de que uma história possui três versões, "O Último Duelo" se aproveita de uma montagem competente da Claire Simpson (vencedora do Oscar pelo inesquecível "Platoon") para criar uma dinâmica narrativa muito interessante e provocadora - reparem como vamos mudando nossa "interpretação da verdade" a cada perspectiva. Pois bem, alinhado a isso, Scott vai entregando pequenos detalhes que vão diferenciando cada uma das versões - são pequenas nuances, diálogos em ordens diferentes e até olhares significantes que vão remodelando a narrativa. É muito bacana!

Alternando cenas de batalhas (sangrentas) bem construídas, que nos lembram os bons tempos de Scott comandando "Gladiador" (2000), com momentos bastante intimistas mesmo envolto a crueldade daquele universo, "O Último Duelo" deve agradar uma audiência mais sensível aos assuntos que exigem um olhar menos superficial e também aqueles que buscam, simplesmente, entretenimento de qualidade. Tecnicamente muito seguro como sempre, Scott sabe o seu valor, marcando essa condução tão polarizada com planos perfeitos e movimentos de câmera belíssimos, sem falar, é claro, da marcante fotografia cinzenta e sombria (ao melhor estilo Game of Thrones) de Dariusz Wolski (de "Relatos do Mundo").

Olha, vale muito o seu play!

Assista Agora

"O Último Duelo" não é um filme de ação, de disputas politicas ou religiosas, de traição ou violência - embora tenha tudo isso. "O Último Duelo" é um drama (profundo) sobre a verdade, mesmo que essa venha mascarada por um contexto de época onde a misoginia e o patriarcado significavam honra e virilidade. O roteiro escrito por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, é baseado em um livro sobre o último duelo judicial oficialmente reconhecido na França, mas que chega acompanhado por um subtexto atual e importante que ganha muita potência na mão (e na cabeça) criativa de Ridley Scott que resolveu contar a mesma história a partir de três diferentes perspectivas. 

No filme acompanhamos a história real de uma mulher francesa do século XIV, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), que desafiou os costumes medievais ao denunciar e levar a julgamento o homem que a violentou, Jacque Le Cris (Adam Driver), ex-companheiro de batalhas e desafeto de seu marido, Jean de Carrouges (Matt Damon). Confira o trailer:

Embora "O Último Duelo" tenha sido muito criticado por se preocupar mais em estabelecer a rivalidade entre Le Cris e Jean de Carrouges, do que pela luta por justiça de Marguerite em uma época em que a Igreja ditava as regras e um Rei simplesmente as aplicava de acordo com sua vontade, eu gostei e, sinceramente, não tive essa leitura - muito pelo contrário, o valor das circunstâncias que levaram ao duelo, para mim, são muito mais potentes do que as disputas carregadas de vaidade entre os personagens, porém Scott usa desse gatilho para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que cria pontos de reflexão sobre o ato sofrido por Marguerite.

Partindo do conceito de que uma história possui três versões, "O Último Duelo" se aproveita de uma montagem competente da Claire Simpson (vencedora do Oscar pelo inesquecível "Platoon") para criar uma dinâmica narrativa muito interessante e provocadora - reparem como vamos mudando nossa "interpretação da verdade" a cada perspectiva. Pois bem, alinhado a isso, Scott vai entregando pequenos detalhes que vão diferenciando cada uma das versões - são pequenas nuances, diálogos em ordens diferentes e até olhares significantes que vão remodelando a narrativa. É muito bacana!

Alternando cenas de batalhas (sangrentas) bem construídas, que nos lembram os bons tempos de Scott comandando "Gladiador" (2000), com momentos bastante intimistas mesmo envolto a crueldade daquele universo, "O Último Duelo" deve agradar uma audiência mais sensível aos assuntos que exigem um olhar menos superficial e também aqueles que buscam, simplesmente, entretenimento de qualidade. Tecnicamente muito seguro como sempre, Scott sabe o seu valor, marcando essa condução tão polarizada com planos perfeitos e movimentos de câmera belíssimos, sem falar, é claro, da marcante fotografia cinzenta e sombria (ao melhor estilo Game of Thrones) de Dariusz Wolski (de "Relatos do Mundo").

Olha, vale muito o seu play!

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13 Reasons Why

Sabe aquela série que a Netflix lança sem muito marketing, com uma levada meio anos 80/90 e que te trás um monte de referências da adolescência?

Pelo jeito a Netflix entendeu o resultado (e o hype) de "Stranger Things" ao lançar "13 Reasons Why"! É exatamente a mesma estratégia e o resultado tende a ser bem similar!!! Aproveite o final de semana e assista, você vai me agradecer! A série conta a história de uma adolescente que se suicidou, mas que antes criou um espécie de "ARG" (alternate reality game) para contar o motivo do seu suicídio para as pessoas que, de alguma forma, foram responsáveis por essa atitude!!! Cada episódio (são 13) é narrado pela protagonista a partir de uma gravação de fita-cassete, ou seja, cada lado da fita, um episódio!!! É muito original o formato da série, e, mesmo se passando nos dias de hoje, trás muito do conceito narrativo de séries clássicas (adolescentes) dos anos 90, mas sem ser piegas! Vale muito a pena. Confira o trailer:

Assim que acabei o episódio final de "13 Reasons Why" tive a certeza de que era uma das coisas mais bacanas que eu assisti na vida! É um episódio realmente especial e que fecha com chave de ouro um arco muito bem construído. É um episódio difícil, duro, profundo, bem feito, bem dirigido, bem interpretado, mas principalmente bem fundamentado! Os produtores e criadores da série foram precisos ao abordar o assunto "suicídio" com uma linguagem correta e verdadeira para os jovens e, indiscutivelmente, para os pais desses jovens - nos faz refletir (e muito)!

"13 Reasons Why" traz aquilo que eu acredito ser um conteúdo perfeito: é um ótimo entretenimento, sem dúvida, mas traz assuntos tão difíceis quanto necessários de serem retratados de uma forma muito inteligente! Se você em algum momento achar que uma ou outra situação está forçando uma barra, eu te aconselho a assistir o documentário "The Hunting Ground" e você vai ver que tudo aquilo realmente existe e que muita gente prefere fechar os olhos do que tirar de uma Universidade o principal jogador de futebol americano que vai fazer com que a cidade e a instituição fiquem famosos por ganhar um campeonato - isso aconteceu, inclusive, com um jogador que hoje ganha milhões na NFL. Revoltante!!!

Vale muito a pena!

Up Date: a série tem mais duas temporadas disponíveis, mas que infelizmente não seguiram a qualidade da primeira!

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Sabe aquela série que a Netflix lança sem muito marketing, com uma levada meio anos 80/90 e que te trás um monte de referências da adolescência?

Pelo jeito a Netflix entendeu o resultado (e o hype) de "Stranger Things" ao lançar "13 Reasons Why"! É exatamente a mesma estratégia e o resultado tende a ser bem similar!!! Aproveite o final de semana e assista, você vai me agradecer! A série conta a história de uma adolescente que se suicidou, mas que antes criou um espécie de "ARG" (alternate reality game) para contar o motivo do seu suicídio para as pessoas que, de alguma forma, foram responsáveis por essa atitude!!! Cada episódio (são 13) é narrado pela protagonista a partir de uma gravação de fita-cassete, ou seja, cada lado da fita, um episódio!!! É muito original o formato da série, e, mesmo se passando nos dias de hoje, trás muito do conceito narrativo de séries clássicas (adolescentes) dos anos 90, mas sem ser piegas! Vale muito a pena. Confira o trailer:

Assim que acabei o episódio final de "13 Reasons Why" tive a certeza de que era uma das coisas mais bacanas que eu assisti na vida! É um episódio realmente especial e que fecha com chave de ouro um arco muito bem construído. É um episódio difícil, duro, profundo, bem feito, bem dirigido, bem interpretado, mas principalmente bem fundamentado! Os produtores e criadores da série foram precisos ao abordar o assunto "suicídio" com uma linguagem correta e verdadeira para os jovens e, indiscutivelmente, para os pais desses jovens - nos faz refletir (e muito)!

"13 Reasons Why" traz aquilo que eu acredito ser um conteúdo perfeito: é um ótimo entretenimento, sem dúvida, mas traz assuntos tão difíceis quanto necessários de serem retratados de uma forma muito inteligente! Se você em algum momento achar que uma ou outra situação está forçando uma barra, eu te aconselho a assistir o documentário "The Hunting Ground" e você vai ver que tudo aquilo realmente existe e que muita gente prefere fechar os olhos do que tirar de uma Universidade o principal jogador de futebol americano que vai fazer com que a cidade e a instituição fiquem famosos por ganhar um campeonato - isso aconteceu, inclusive, com um jogador que hoje ganha milhões na NFL. Revoltante!!!

Vale muito a pena!

Up Date: a série tem mais duas temporadas disponíveis, mas que infelizmente não seguiram a qualidade da primeira!

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15:17 Destino Paris

Baseado no livro “The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Soldiers”, o filme de Clint Eastwood conta a história de três americanos, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos. Amigos desde a infância, eles estavam viajando pela Europa quando acabaram reféns de um terrorista marroquino, Ayoub El-Khazzani (Ray Corasani), em um trem que ia de Amsterdã para Paris.

Pelo trailer temos a impressão que é mais um grande filme sobre heróis americanos "15:17 Destino Paris", certo? Pois é, de fato, esse é o objetivo de Eastwood, mas o resultado é bem mediano, embora seja um bom entretenimento se você não assistir com as expectativas que um filme do diretor carrega!

"15:17 Destino Paris" é muito bem dirigido por uma cara que domina a gramática cinematográfica como ninguém - é perceptível a qualidade técnica e a capacidade que o Eastwood tem de contar uma história que dialoga com seus propósitos, mas para mim, o maior problema do filme acabou sendo seu roteiro! Ele é muito inconsistente - parece que editaram para caber na "Tela Quente", sabe? 

O roteiro de Dorothy Blyskal transita entre a vida adulta e a infância dos três protagonistas, porém, o que poderia ser um trabalho profundo sobre a formação do caráter e dos valores dos futuros heróis em diversas camadas, é só um retrato de três garotos fazendo malcriação! Já adultos, o filme soa mais como uma espécie de Road Movie, quase colegial, com diálogos muitas vezes superficiais e sem o menor propósito para o que mais interessa: os momentos de tensão perante uma experiência marcante e aterrorizante vivida naquele 21 de agosto de 2015 - como, por exemplo, Paul Greengrass fez no excelente "Voo United 93".

A parte curiosa do filme é que Clint Eastwood não usou atores para contar a história! Quem viveu aquele dia, reviveu na ficção - e isso pesa no filme! Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos se esforçam, mas não entregam a dramaticidade que o filme pedia!

Olha, "15:17 Destino Paris" era uma história que merecia ser contada! Vale como referência histórica, mas o filme é aquele típico entretenimento "Sessão da Tarde" sem maiores pretensões! 

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Baseado no livro “The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Soldiers”, o filme de Clint Eastwood conta a história de três americanos, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos. Amigos desde a infância, eles estavam viajando pela Europa quando acabaram reféns de um terrorista marroquino, Ayoub El-Khazzani (Ray Corasani), em um trem que ia de Amsterdã para Paris.

Pelo trailer temos a impressão que é mais um grande filme sobre heróis americanos "15:17 Destino Paris", certo? Pois é, de fato, esse é o objetivo de Eastwood, mas o resultado é bem mediano, embora seja um bom entretenimento se você não assistir com as expectativas que um filme do diretor carrega!

"15:17 Destino Paris" é muito bem dirigido por uma cara que domina a gramática cinematográfica como ninguém - é perceptível a qualidade técnica e a capacidade que o Eastwood tem de contar uma história que dialoga com seus propósitos, mas para mim, o maior problema do filme acabou sendo seu roteiro! Ele é muito inconsistente - parece que editaram para caber na "Tela Quente", sabe? 

O roteiro de Dorothy Blyskal transita entre a vida adulta e a infância dos três protagonistas, porém, o que poderia ser um trabalho profundo sobre a formação do caráter e dos valores dos futuros heróis em diversas camadas, é só um retrato de três garotos fazendo malcriação! Já adultos, o filme soa mais como uma espécie de Road Movie, quase colegial, com diálogos muitas vezes superficiais e sem o menor propósito para o que mais interessa: os momentos de tensão perante uma experiência marcante e aterrorizante vivida naquele 21 de agosto de 2015 - como, por exemplo, Paul Greengrass fez no excelente "Voo United 93".

A parte curiosa do filme é que Clint Eastwood não usou atores para contar a história! Quem viveu aquele dia, reviveu na ficção - e isso pesa no filme! Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos se esforçam, mas não entregam a dramaticidade que o filme pedia!

Olha, "15:17 Destino Paris" era uma história que merecia ser contada! Vale como referência histórica, mas o filme é aquele típico entretenimento "Sessão da Tarde" sem maiores pretensões! 

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3096 Dias

Esse filme é perturbador! "3096 Dias" (que depois ganhou um complemento no título, ficando "3096 Dias de Cativeiro") não alivia na sua narrativa - uma característica muito marcante do cinema alemão inclusive, mesmo tendo uma diretora americana no comando - Sherry Hormann. Se você assistiu a excelente série documental "O Desaparecimento de Madeleine McCann", fica impossível não conectar as histórias, porém, dessa vez, sob o ponto de vista da vítima - o que traz sentimentos e sensações nada agradáveis, transformando essa experiência em uma jornada bem indigesta.

"3096 Dias" é uma adaptação do livro autobiográfico da austríaca Natascha Kampusch e conta a história de um dos mais brutais casos de sequestro já reportados pela mídia: em 2 de março de 1998, aos 10 anos de idade, Natascha (Amelia Pidgeon e depois Antonia Campbell-Hughes) foi capturada por um homem, Wolfgang Priklopil (Thure Lindhardt), que a manteve em cativeiro por mais de oito anos – ou 3096 dias, precisamente. Confira o trailer:

Outra referência que logo vem a cabeça é o ótimo "O Quarto de Jack", filme de 2015 com Brie Larson e Jacob Tremblay. Acontece que nessa produção alemã, a história não "romantiza" a situação, ela simplesmente expõe os horrores do cativeiro e de ter que se relacionar tanto tempo com um psicopata. Um dos méritos de Ruth Toma, roteirista do filme, foi capturar os momentos mais críticos dessa experiência e transformar em uma narrativa que usa e abusa da expectativa para nos manter grudados na tela. A diretora Sherry Hormann impõe um conceito muito autoral ao filme, trabalhando a narrativa sem se preocupar em dar todas as respostas ou motivações para cada ação - o que traz um caráter independente muito interessante para o filme. A ideia, aliás, é justamente criar uma espécie de confusão com o passar do tempo - algo muito claro e palpável por se tratar de uma história real que foi pautada em anos de abuso psicológico e sexual.

A criação da ambientação é sensacional. O cenário que reconstrói o porão (ou melhor, o cubículo) em que Natascha ficou presa por tanto tempo já ajuda a entender a mente doentia de Wolfgang - saber que ele construiu o local com as próprias mãos, pensando no difícil acesso, em ser um lugar sem janelas, sem cama e sem acesso as condições básicas de higiene, incomoda demais. O desenho de som também merece ser mencionado: reparem que em determinado momento do filme, só de escutar a porta que dá acesso ao porão sendo aberta, já nos causa uma péssima sensação. Outro detalhe: em muitos momentos o silêncio estará tão presente que chegamos a escutar o coração de Natascha batendo, bem ao fundo, quase imperceptível - é um grande trabalho de sonorização.

O elenco também está incrível, mas a última cena da Amelia Pidgeon (a Natascha criança) é de cortar o coração - um monólogo digno de aplausos. O trabalho corporal de Antonia Campbell-Hughes, transformando sua personagem em uma adolescente esquálida e sem vida é impressionante - prestem atenção no olhar e em como ela também se relaciona com todas as oportunidades de sair daquela situação: seja fugindo, se matando, esfaqueando o Wolfgang, etc. O trabalho de Campbell-Hughes me lembrou muito a performance premiada de Shira Haas em "Nada Ortodoxa". Obviamente que Thure Lindhardt está sensacional como Wolfgang Priklopil, principalmente quando passa a expor os problemas de sexualidade do personagem: seja em um ataque de pânico silencioso em uma boate ou até quando obriga Natascha usar cuecas e andar sem camisa em casa, como se fosse um garoto.

"3096 Dias", deixando um pouco de lado sua relação e fidelidade com um livro rico em detalhes, é possível afirmar que o filme entrega o que promete e com louvor: não é fácil adaptar uma obra como essa, com uma uma linha cronológica tão extensa e importante, ainda retratar uma história real tão marcante e complexa, repleta de frieza e crueldade. Olha, é um retrato do que existe de pior no ser humano doente e covarde!

Vale muito o seu play!

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Esse filme é perturbador! "3096 Dias" (que depois ganhou um complemento no título, ficando "3096 Dias de Cativeiro") não alivia na sua narrativa - uma característica muito marcante do cinema alemão inclusive, mesmo tendo uma diretora americana no comando - Sherry Hormann. Se você assistiu a excelente série documental "O Desaparecimento de Madeleine McCann", fica impossível não conectar as histórias, porém, dessa vez, sob o ponto de vista da vítima - o que traz sentimentos e sensações nada agradáveis, transformando essa experiência em uma jornada bem indigesta.

"3096 Dias" é uma adaptação do livro autobiográfico da austríaca Natascha Kampusch e conta a história de um dos mais brutais casos de sequestro já reportados pela mídia: em 2 de março de 1998, aos 10 anos de idade, Natascha (Amelia Pidgeon e depois Antonia Campbell-Hughes) foi capturada por um homem, Wolfgang Priklopil (Thure Lindhardt), que a manteve em cativeiro por mais de oito anos – ou 3096 dias, precisamente. Confira o trailer:

Outra referência que logo vem a cabeça é o ótimo "O Quarto de Jack", filme de 2015 com Brie Larson e Jacob Tremblay. Acontece que nessa produção alemã, a história não "romantiza" a situação, ela simplesmente expõe os horrores do cativeiro e de ter que se relacionar tanto tempo com um psicopata. Um dos méritos de Ruth Toma, roteirista do filme, foi capturar os momentos mais críticos dessa experiência e transformar em uma narrativa que usa e abusa da expectativa para nos manter grudados na tela. A diretora Sherry Hormann impõe um conceito muito autoral ao filme, trabalhando a narrativa sem se preocupar em dar todas as respostas ou motivações para cada ação - o que traz um caráter independente muito interessante para o filme. A ideia, aliás, é justamente criar uma espécie de confusão com o passar do tempo - algo muito claro e palpável por se tratar de uma história real que foi pautada em anos de abuso psicológico e sexual.

A criação da ambientação é sensacional. O cenário que reconstrói o porão (ou melhor, o cubículo) em que Natascha ficou presa por tanto tempo já ajuda a entender a mente doentia de Wolfgang - saber que ele construiu o local com as próprias mãos, pensando no difícil acesso, em ser um lugar sem janelas, sem cama e sem acesso as condições básicas de higiene, incomoda demais. O desenho de som também merece ser mencionado: reparem que em determinado momento do filme, só de escutar a porta que dá acesso ao porão sendo aberta, já nos causa uma péssima sensação. Outro detalhe: em muitos momentos o silêncio estará tão presente que chegamos a escutar o coração de Natascha batendo, bem ao fundo, quase imperceptível - é um grande trabalho de sonorização.

O elenco também está incrível, mas a última cena da Amelia Pidgeon (a Natascha criança) é de cortar o coração - um monólogo digno de aplausos. O trabalho corporal de Antonia Campbell-Hughes, transformando sua personagem em uma adolescente esquálida e sem vida é impressionante - prestem atenção no olhar e em como ela também se relaciona com todas as oportunidades de sair daquela situação: seja fugindo, se matando, esfaqueando o Wolfgang, etc. O trabalho de Campbell-Hughes me lembrou muito a performance premiada de Shira Haas em "Nada Ortodoxa". Obviamente que Thure Lindhardt está sensacional como Wolfgang Priklopil, principalmente quando passa a expor os problemas de sexualidade do personagem: seja em um ataque de pânico silencioso em uma boate ou até quando obriga Natascha usar cuecas e andar sem camisa em casa, como se fosse um garoto.

"3096 Dias", deixando um pouco de lado sua relação e fidelidade com um livro rico em detalhes, é possível afirmar que o filme entrega o que promete e com louvor: não é fácil adaptar uma obra como essa, com uma uma linha cronológica tão extensa e importante, ainda retratar uma história real tão marcante e complexa, repleta de frieza e crueldade. Olha, é um retrato do que existe de pior no ser humano doente e covarde!

Vale muito o seu play!

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A Batalha das Correntes

A Batalha das Correntes

"A Batalha das Correntes" é um filme dos mais interessantes, principalmente para aqueles que buscam referências históricas para entender a jornada da inovação (e eventualmente do empreendedorismo). Com uma narrativa bem próxima de "Radioactive" temos a chance de conhecer uma das mentes mais brilhantes da história, Thomas Edison, mesmo que se apropriando de uma personalidade bastante difícil bem ao estilo Steve Jobs, diga-se de passagem.

Ambientado no final do século XIX, a Guerra das Correntes foi uma disputa entre Thomas Edison (Benedict Cumberbatch) e George Westinghouse (Michael Shannon) sobre como deveria ser feita a distribuição da eletricidade nos EUA. Edison fez uma campanha pela utilização da corrente contínua para isso, enquanto Westinghouse e Nikola Tesla (Nicholas Hoult) defendiam a corrente alternada. Basicamente, o primeiro dizia que a segunda opção apresentava pouca segurança no seu manejo, podendo, inclusive, causar mortes, enquanto que estes defendiam a economia da prática que empregavam. Confira o trailer:

Pela sinopse temos a impressão que o assunto pode parecer chato, mas dada a referência histórica e respeitando uma época onde grandes descobertas movimentavam a humanidade, era como se Jobs disputasse com Bill Gates a hegemonia de um mercado de computadores pessoais a partir de suas criações. E a analogia vem repleta de coincidências, veja: o roteiro se concentra nas disputas (pessoais e profissionais) entre Edison e Westinghouse, o primeiro apontado como um gênio, famoso, admirado, com temperamento forte, seguro de sua forma de enxergar o mundo e como suas criações poderiam mudar os rumos da história; já o segundo trazia uma visão menos romântica do empresário, mais objetiva, focado na relação custo x beneficio e um pouco incomodado com a falta de reconhecimento, mas nem por isso desprovido de um bom coração e uma capacidade intelectual acima da média. E aqui cabe um elogio: tanto Benedict Cumberbatch como Michael Shannon estão excelentes nos personagens - mesmo com diálogos um pouco pesados, ambos trazem "alma" para um tema completamente técnico e muitas vezes durante o filme, extremamente racional.

Outros dois destaques que saltam aos olhos, sem dúvida, é a fotografia incandescente de Chung-hoon Chung ("It: A Coisa") e o desenho de produção (+ departamento de arte) liderado por Jan Roelfs (indicado duas vezes ao Oscar por "Gattaca" e "Orlando, a mulher imortal") - a junção dessas duas competências criam uma ambientação bastante interessante, mesmo que para alguns um pouco descolada da realidade. O fato é que, no geral, o filme é muito bem realizado tecnicamente e conceitualmente segue o mesmo caminho - com uma direção segura do Alfonso Gomez-Rejon é fácil perceber a identidade do cineasta, porém, fica claro que o filme poderia ter ido além, talvez até como uma minissérie, tamanha era a efervescência da época, por se tratar de um período tão transformador e tão rico em personagens e histórias.

Gostei muito e indico tranquilamente!

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"A Batalha das Correntes" é um filme dos mais interessantes, principalmente para aqueles que buscam referências históricas para entender a jornada da inovação (e eventualmente do empreendedorismo). Com uma narrativa bem próxima de "Radioactive" temos a chance de conhecer uma das mentes mais brilhantes da história, Thomas Edison, mesmo que se apropriando de uma personalidade bastante difícil bem ao estilo Steve Jobs, diga-se de passagem.

Ambientado no final do século XIX, a Guerra das Correntes foi uma disputa entre Thomas Edison (Benedict Cumberbatch) e George Westinghouse (Michael Shannon) sobre como deveria ser feita a distribuição da eletricidade nos EUA. Edison fez uma campanha pela utilização da corrente contínua para isso, enquanto Westinghouse e Nikola Tesla (Nicholas Hoult) defendiam a corrente alternada. Basicamente, o primeiro dizia que a segunda opção apresentava pouca segurança no seu manejo, podendo, inclusive, causar mortes, enquanto que estes defendiam a economia da prática que empregavam. Confira o trailer:

Pela sinopse temos a impressão que o assunto pode parecer chato, mas dada a referência histórica e respeitando uma época onde grandes descobertas movimentavam a humanidade, era como se Jobs disputasse com Bill Gates a hegemonia de um mercado de computadores pessoais a partir de suas criações. E a analogia vem repleta de coincidências, veja: o roteiro se concentra nas disputas (pessoais e profissionais) entre Edison e Westinghouse, o primeiro apontado como um gênio, famoso, admirado, com temperamento forte, seguro de sua forma de enxergar o mundo e como suas criações poderiam mudar os rumos da história; já o segundo trazia uma visão menos romântica do empresário, mais objetiva, focado na relação custo x beneficio e um pouco incomodado com a falta de reconhecimento, mas nem por isso desprovido de um bom coração e uma capacidade intelectual acima da média. E aqui cabe um elogio: tanto Benedict Cumberbatch como Michael Shannon estão excelentes nos personagens - mesmo com diálogos um pouco pesados, ambos trazem "alma" para um tema completamente técnico e muitas vezes durante o filme, extremamente racional.

Outros dois destaques que saltam aos olhos, sem dúvida, é a fotografia incandescente de Chung-hoon Chung ("It: A Coisa") e o desenho de produção (+ departamento de arte) liderado por Jan Roelfs (indicado duas vezes ao Oscar por "Gattaca" e "Orlando, a mulher imortal") - a junção dessas duas competências criam uma ambientação bastante interessante, mesmo que para alguns um pouco descolada da realidade. O fato é que, no geral, o filme é muito bem realizado tecnicamente e conceitualmente segue o mesmo caminho - com uma direção segura do Alfonso Gomez-Rejon é fácil perceber a identidade do cineasta, porém, fica claro que o filme poderia ter ido além, talvez até como uma minissérie, tamanha era a efervescência da época, por se tratar de um período tão transformador e tão rico em personagens e histórias.

Gostei muito e indico tranquilamente!

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A Cabana

Antes de mais nada é preciso dizer que assisti "A Cabana" sem ter lido o livro, então vou basear minha análise exclusivamente no filme. Eu gosto muito do assunto e levando em consideração que o filme não poderia ser muito mais longo do que foi (o que deve ter deixado o roteirista que adaptou a obra maluco), eu gostei; mas, infelizmente, não é um filme daqueles inesquecíveis - o que me chateia um pouco, pois a história (e todo contexto que envolveu a produção) tinha potencial para ser!

O filme conta a história de Mack Phillips (Sam Worthington​) que, depois de sofrer uma tragédia familiar, entra em uma profunda depressão, que o faz questionar suas crenças mais íntimas. Diante de uma crise de fé, ele recebe uma carta misteriosa convidando ele para ir até uma cabana abandonada. Mesmo sem a aprovação dos mais próximos, Mack inicia uma jornada na busca por algumas respostas e acaba encontrando verdades tão significativas que transformam seu entendimento sobre a tragédia que abalou sua família e que vai fazer com que sua vida mude para sempre. Confira o trailer:

Inspirada no best-seller de William P. Young, "A Cabana"  é o típico filme "Sessão da Tarde" - o que nesse caso nem é depreciativo, mas que claramente foi produzido para todo mundo assistir e, principalmente, para todo mundo se emocionar! Embora o roteiro module uma certa profundidade reflexiva ao colocar fortes elementos religiosos como "Deus" (ou Papa) personagem interpretado pela excelente Octavia Spencer, "Jesus" do também elogiado Avraham Aviv Alush e o "Espírito Santo" (ou Sarayu) de Sumire Matsubara, em um contexto interessante sobre o perdão e a culpa que nos consome, a estrutura narrativa escolhida não se aprofunda no elemento que mais importaria para o filme: a dor - e aí, um filme como "Amor além da Vida" (1998) se sobressai em relação "A Cabana"!

Vale o play? Sim, mas não espere nada mais que um filme água com açúcar, com um tema ótimo, uma discussão conceitual pertinente e alguma emoção!

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Antes de mais nada é preciso dizer que assisti "A Cabana" sem ter lido o livro, então vou basear minha análise exclusivamente no filme. Eu gosto muito do assunto e levando em consideração que o filme não poderia ser muito mais longo do que foi (o que deve ter deixado o roteirista que adaptou a obra maluco), eu gostei; mas, infelizmente, não é um filme daqueles inesquecíveis - o que me chateia um pouco, pois a história (e todo contexto que envolveu a produção) tinha potencial para ser!

O filme conta a história de Mack Phillips (Sam Worthington​) que, depois de sofrer uma tragédia familiar, entra em uma profunda depressão, que o faz questionar suas crenças mais íntimas. Diante de uma crise de fé, ele recebe uma carta misteriosa convidando ele para ir até uma cabana abandonada. Mesmo sem a aprovação dos mais próximos, Mack inicia uma jornada na busca por algumas respostas e acaba encontrando verdades tão significativas que transformam seu entendimento sobre a tragédia que abalou sua família e que vai fazer com que sua vida mude para sempre. Confira o trailer:

Inspirada no best-seller de William P. Young, "A Cabana"  é o típico filme "Sessão da Tarde" - o que nesse caso nem é depreciativo, mas que claramente foi produzido para todo mundo assistir e, principalmente, para todo mundo se emocionar! Embora o roteiro module uma certa profundidade reflexiva ao colocar fortes elementos religiosos como "Deus" (ou Papa) personagem interpretado pela excelente Octavia Spencer, "Jesus" do também elogiado Avraham Aviv Alush e o "Espírito Santo" (ou Sarayu) de Sumire Matsubara, em um contexto interessante sobre o perdão e a culpa que nos consome, a estrutura narrativa escolhida não se aprofunda no elemento que mais importaria para o filme: a dor - e aí, um filme como "Amor além da Vida" (1998) se sobressai em relação "A Cabana"!

Vale o play? Sim, mas não espere nada mais que um filme água com açúcar, com um tema ótimo, uma discussão conceitual pertinente e alguma emoção!

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A Delicadeza do Amor

"La délicatesse" (no original) é mais um daqueles filmes que você assiste sorrindo - até quando o peito aperta um pouquinho, dá para prever que algo bom vem pela frente. Eu diria que o filme traz um cinema francês clássico sob um novo olhar, com a propriedade de quem tem a sensibilidade de captar os pequenos gestos no meio de grandes atuações. Mérito de Audrey Tautou e François Damiens e de uma direção segura de David e Stéphane Foenkinos que vale a sessão!

Nathalie (Audrey Tautou) tem uma vida maravilhosa. Ela é jovem, bonita e tem o casamento perfeito. Mas depois de um terrível acidente, seu mundo vira de ponta cabeça. Nos anos seguintes, ela foca em seu trabalho, deixando seus sentimentos de lado. Então, de repente, sem mesmo entender o porquê, ela beija o homem mais inesperado -- seu colega de trabalho, Markus (François Damiens). Esse casal incomum embarca numa jornada emocional; uma jornada que suscita todos os tipos de questões e hostilidade no trabalho. Confira o trailer:

A grande questão que o roteiro levanta, brilhantemente adaptado do romance do próprio David Foenkinos, é se, de fato, podemos escolher uma maneira de redescobrir o prazer de viver?

Veja, Nathalie e Markus formam um casal improvável: ele, sueco, introspectivo e fisicamente desajeitado; ela, linda, naturalmente irradiante. E aqui cabe uma passagem interessante do filme que define a inteligência do roteiro e a felicidade da escolha do elenco: em um fim de noite, já levemente bêbado de vinho (e paixão), Charles (Bruno Todeschini), o chefe de Nathalie , diz: “Nathalie é daquela categoria especial de mulher que anula todas as outras. Nathalie é Yoko Ono – do tipo que é capaz de acabar com a maior banda de rock do mundo.”

Talvez o prólogo de "A Delicadeza do Amor" não justifique o que vem a seguir, mas ao mesmo tempo é muito inteligente ao nos posicionar naquilo que Tautou parece fazer de melhor no cinema: viver um conto de fadas - então espere, tenha paciência com a história! A própria fotografia do diretor Rémy Chevrin vai nos transportando para Paris pouco a pouco, da mesma forma que Gordon Willis fez com Manhattan de Woody Allen. Ela cria uma atmosfera de fantasia dentro de um cenário realista que é lindo de sentir. O filme dos irmãos Foenkinos é justamente isso: um drama sensorial, que nos tira da realidade, mesmo em muitos momentos explorando situações brutalmente reais! Esse choque é justamente o diferencial da narrativa!

"A Delicadeza do Amor" é uma história de renascimento, mas é também um conto sobre a singularidade do amor, que prova, mais uma vez, que a beleza está nos detalhes. Reparem como um filme de 2011 continua extremamente atual, em tempos instagramáveis de uma supervalorização da aparência, da beleza fútil, do sucesso material e da riqueza vazia, existem valores muito mais importantes e verdadeiros!

Vale muito a pena!

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"La délicatesse" (no original) é mais um daqueles filmes que você assiste sorrindo - até quando o peito aperta um pouquinho, dá para prever que algo bom vem pela frente. Eu diria que o filme traz um cinema francês clássico sob um novo olhar, com a propriedade de quem tem a sensibilidade de captar os pequenos gestos no meio de grandes atuações. Mérito de Audrey Tautou e François Damiens e de uma direção segura de David e Stéphane Foenkinos que vale a sessão!

Nathalie (Audrey Tautou) tem uma vida maravilhosa. Ela é jovem, bonita e tem o casamento perfeito. Mas depois de um terrível acidente, seu mundo vira de ponta cabeça. Nos anos seguintes, ela foca em seu trabalho, deixando seus sentimentos de lado. Então, de repente, sem mesmo entender o porquê, ela beija o homem mais inesperado -- seu colega de trabalho, Markus (François Damiens). Esse casal incomum embarca numa jornada emocional; uma jornada que suscita todos os tipos de questões e hostilidade no trabalho. Confira o trailer:

A grande questão que o roteiro levanta, brilhantemente adaptado do romance do próprio David Foenkinos, é se, de fato, podemos escolher uma maneira de redescobrir o prazer de viver?

Veja, Nathalie e Markus formam um casal improvável: ele, sueco, introspectivo e fisicamente desajeitado; ela, linda, naturalmente irradiante. E aqui cabe uma passagem interessante do filme que define a inteligência do roteiro e a felicidade da escolha do elenco: em um fim de noite, já levemente bêbado de vinho (e paixão), Charles (Bruno Todeschini), o chefe de Nathalie , diz: “Nathalie é daquela categoria especial de mulher que anula todas as outras. Nathalie é Yoko Ono – do tipo que é capaz de acabar com a maior banda de rock do mundo.”

Talvez o prólogo de "A Delicadeza do Amor" não justifique o que vem a seguir, mas ao mesmo tempo é muito inteligente ao nos posicionar naquilo que Tautou parece fazer de melhor no cinema: viver um conto de fadas - então espere, tenha paciência com a história! A própria fotografia do diretor Rémy Chevrin vai nos transportando para Paris pouco a pouco, da mesma forma que Gordon Willis fez com Manhattan de Woody Allen. Ela cria uma atmosfera de fantasia dentro de um cenário realista que é lindo de sentir. O filme dos irmãos Foenkinos é justamente isso: um drama sensorial, que nos tira da realidade, mesmo em muitos momentos explorando situações brutalmente reais! Esse choque é justamente o diferencial da narrativa!

"A Delicadeza do Amor" é uma história de renascimento, mas é também um conto sobre a singularidade do amor, que prova, mais uma vez, que a beleza está nos detalhes. Reparem como um filme de 2011 continua extremamente atual, em tempos instagramáveis de uma supervalorização da aparência, da beleza fútil, do sucesso material e da riqueza vazia, existem valores muito mais importantes e verdadeiros!

Vale muito a pena!

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A Grande Jogada

Você não precisa criar um produto ou serviço revolucionário para se transformar em um grande empreendedor, basta conhecer muito bem seu mercado, escutar seus potenciais clientes e entregar algo melhor e que possa agradar mais do que seus concorrentes - "A Grande Jogada" fala exatamente sobre essa jornada real, mas pelos olhos de Molly Bloom (Jessica Chastain), uma ex-esquiadora olímpica forçada a abandonar a profissão após um acidente, que se tornou a "princesa do pôquer" faturando milhões organizando noitadas de jogatina VIP!

Baseado no livro "Molly’s Game: From Hollywood’s Elite to Wall Street’s Billionaire Boys Club, My High-Stakes Adventure in the World of Underground Poker", o  filme acompanha dois momentos da protagonista: sua ascensão dentro do mundo do pôquer, desde um pequeno barzinho onde trabalhava como garçonete até uma luxuosa cobertura contando com a presença de diversas celebridades; e como ela precisou enfrentar as consequências de gerenciar os jogos após ser presa por envolvimento com a máfia russa. Confira o trailer:

Embora o roteiro de "A Grande Jogada", escrito pelo excelente Aaron Sorkin (Rede Social), tenha ganho uma indicação merecida para o Oscar de 2018, foi a atriz Jessica Chastain a grande injustiçada do ano - ela merecia demais, no mínimo, a "indicação" por essa personagem. Ela está incrível! Reparem na dinâmica entre Molly e seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba). A parceria entre eles, que marca a cronologia onde a personagem precisa se defender na justiça após ser presa e ter seu dinheiro confiscado, rende diálogos sensacionais, cheio de nuances e muito bem construídos por Sorkin - que também assina a direção, sua estreia.

Outro ponto que merece destaque é a edição: por causa de um ritmo bem acelerado, com muitos cortes e várias tomadas rápidas, cria-se uma dinâmica narrativa que nos impede de tirar os olhos da tela, fazendo com que o filme passe voando, sem se tornar cansativo - são mais de duas horas de filme e nem nos damos conta. Embora sem muitos riscos, a direção do Aaron Sorkin é bastante competente e a forma como ele constrói toda aquela atmosfera, que fica em uma linha muito tênue entre o luxo e o lixo, é simplesmente sensacional.

É claro que os mais familiarizados com o pôquer certamente terão uma experiência mais, digamos, interessante, pelo simples fato de entenderem o que, de fato, está acontecendo com as cartas na mesa, mas da mesma forma que "Gambito da Rainha" não é um drama sobre xadrez, "A Grande Jogada" não é sobre pôquer e sim sobre a jornada única de uma protagonista forte, inteligente, empreendedora, que encontrou na clandestinidade a chance de vencer na vida - com suas regras, com seus riscos e com sua dores! 

Vale muito o seu play!

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Você não precisa criar um produto ou serviço revolucionário para se transformar em um grande empreendedor, basta conhecer muito bem seu mercado, escutar seus potenciais clientes e entregar algo melhor e que possa agradar mais do que seus concorrentes - "A Grande Jogada" fala exatamente sobre essa jornada real, mas pelos olhos de Molly Bloom (Jessica Chastain), uma ex-esquiadora olímpica forçada a abandonar a profissão após um acidente, que se tornou a "princesa do pôquer" faturando milhões organizando noitadas de jogatina VIP!

Baseado no livro "Molly’s Game: From Hollywood’s Elite to Wall Street’s Billionaire Boys Club, My High-Stakes Adventure in the World of Underground Poker", o  filme acompanha dois momentos da protagonista: sua ascensão dentro do mundo do pôquer, desde um pequeno barzinho onde trabalhava como garçonete até uma luxuosa cobertura contando com a presença de diversas celebridades; e como ela precisou enfrentar as consequências de gerenciar os jogos após ser presa por envolvimento com a máfia russa. Confira o trailer:

Embora o roteiro de "A Grande Jogada", escrito pelo excelente Aaron Sorkin (Rede Social), tenha ganho uma indicação merecida para o Oscar de 2018, foi a atriz Jessica Chastain a grande injustiçada do ano - ela merecia demais, no mínimo, a "indicação" por essa personagem. Ela está incrível! Reparem na dinâmica entre Molly e seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba). A parceria entre eles, que marca a cronologia onde a personagem precisa se defender na justiça após ser presa e ter seu dinheiro confiscado, rende diálogos sensacionais, cheio de nuances e muito bem construídos por Sorkin - que também assina a direção, sua estreia.

Outro ponto que merece destaque é a edição: por causa de um ritmo bem acelerado, com muitos cortes e várias tomadas rápidas, cria-se uma dinâmica narrativa que nos impede de tirar os olhos da tela, fazendo com que o filme passe voando, sem se tornar cansativo - são mais de duas horas de filme e nem nos damos conta. Embora sem muitos riscos, a direção do Aaron Sorkin é bastante competente e a forma como ele constrói toda aquela atmosfera, que fica em uma linha muito tênue entre o luxo e o lixo, é simplesmente sensacional.

É claro que os mais familiarizados com o pôquer certamente terão uma experiência mais, digamos, interessante, pelo simples fato de entenderem o que, de fato, está acontecendo com as cartas na mesa, mas da mesma forma que "Gambito da Rainha" não é um drama sobre xadrez, "A Grande Jogada" não é sobre pôquer e sim sobre a jornada única de uma protagonista forte, inteligente, empreendedora, que encontrou na clandestinidade a chance de vencer na vida - com suas regras, com seus riscos e com sua dores! 

Vale muito o seu play!

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A Grande Mentira

Existe um linha muito tênue entre o bom e o ruim e alguns filmes acabam transitando por ela - "A Grande Mentira" é um ótimo exemplo disso! O filme acompanha o golpista Roy Courtnay (Ian McKellen) desde o momento em que ele conhece a viúva Betty McLeish (Hellen Mirren) em um site de namoro. Depois de alguns poucos encontros, Betty abre sua casa e sua vida para Courtnay que enxerga nesse novo relacionamento mais uma chance para dar um grande golpe. O problema é que Roy acaba se apaixonando por ela ao mesmo tempo em que o desconfiado sobrinho de Betty começa investigar o seu passado. Assista o trailer para continuarmos nossa análise:

Baseado no livro de Nicholas Searle, "A Grande Mentira" transita muito bem entre alguns gêneros como suspense e drama, com personagens mais complexos, daqueles que só o passado pode explicar as atitudes do presente, muito comum em filmes dos anos 90 como "Mulher Solteira Procura" ou "Louca Obsessão". Então vamos lá: por muito tempo o "flashback" carregou a fama de servir de muleta para os roteiristas, afinal era a chance de tirar o coelho da cartola e surpreender o publico com um final impensável, acontece que os tempos são outros e muito da gramática cinematográfica que funcionava perfeitamente há 20 anos atrás, hoje já não gera o mesmo efeito e muito menos o mesmo resultado. Nesse contexto, é até possível imaginar a qualidade do livro de Searle, mas sua adaptação vai soar bastante superficial para os mais exigentes, pois o roteiro não tem tempo de se aprofundar no desenvolvimento dos ótimos personagens de Mirren e McKellen e muito menos em tudo que os rodeiam - as peças que precisávamos para fechar o quebra-cabeça certamente estariam lá se o roteiro fosse melhor (ou se a história proporcionasse isso de uma maneira mais inteligente), não é o caso! Não que o filme seja ruim, não é isso, mas essas tramas secundárias são tão mal desenvolvidas que pouco se aproveita no plot principal, que é o que realmente interessa - é a conexão que é fraca, não o fato delas existirem. Um bom exemplo é o relacionamento de Betty com o seu sobrinho Stephen (Russell Tovey, do excelente "Years and Years" da HBO) - ele some e aparece ao melhor estilo "Mestre dos Magos" e nada dessa relação justificaria a entrega que o filme faz no ato final - a grande verdade é que, depois da conclusão do filme, temos a sensação de que o roteirista roubou no jogo pela simples intenção de nos surpreender com um plot twist que não é ruim, mas que poderia ser muito melhor se as pistas já tivessem sido apresentadas.

Sobre o filme em si, posso dizer que é bem dirigido pelo ótimo Bill Condon (Bela e a Fera) - ele consegue criar uma certa tensão, mesmo abusando de conceitos menos criativos e já ultrapassados como a sombra na porta da cozinha no meio da madrugada azul americana que assusta a velinha indefesa ou o didatismo de um close que vai explicar (ou entregar) sua consequência um pouco mais a frente! Ao sair da sessão, me faz pensar que esse filme na mão de um Davd Fincher poderia ser bem mais intrigante, não sei! Mirren e McKellen dão força aos personagens com muita competência, mas infelizmente caem nos buracos que o roteiro tem. A fotografia do alemão Tobias A. Schliessler ("O Quinto Poder") é muito interessante, principalmente nas cenas externas de Londres e Berlin - para quem assistiu o trailer, a cena do metrô de Londres é boa mesmo!

O fato é que "A Grande Mentira" poderia ser um bom filme para alugarmos nas locadoras (se elas ainda existissem) - digo isso pela sua característica como entretenimento, pela forma como foi filmada e, principalmente, pelas escolhas de um roteiro extremamente datado. Uma hora e meia de entretenimento está garantido, uma ou outra surpresa também, mas não espere mais que isso. Bom para um sábado chuvoso e se dormir, dormiu!

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Existe um linha muito tênue entre o bom e o ruim e alguns filmes acabam transitando por ela - "A Grande Mentira" é um ótimo exemplo disso! O filme acompanha o golpista Roy Courtnay (Ian McKellen) desde o momento em que ele conhece a viúva Betty McLeish (Hellen Mirren) em um site de namoro. Depois de alguns poucos encontros, Betty abre sua casa e sua vida para Courtnay que enxerga nesse novo relacionamento mais uma chance para dar um grande golpe. O problema é que Roy acaba se apaixonando por ela ao mesmo tempo em que o desconfiado sobrinho de Betty começa investigar o seu passado. Assista o trailer para continuarmos nossa análise:

Baseado no livro de Nicholas Searle, "A Grande Mentira" transita muito bem entre alguns gêneros como suspense e drama, com personagens mais complexos, daqueles que só o passado pode explicar as atitudes do presente, muito comum em filmes dos anos 90 como "Mulher Solteira Procura" ou "Louca Obsessão". Então vamos lá: por muito tempo o "flashback" carregou a fama de servir de muleta para os roteiristas, afinal era a chance de tirar o coelho da cartola e surpreender o publico com um final impensável, acontece que os tempos são outros e muito da gramática cinematográfica que funcionava perfeitamente há 20 anos atrás, hoje já não gera o mesmo efeito e muito menos o mesmo resultado. Nesse contexto, é até possível imaginar a qualidade do livro de Searle, mas sua adaptação vai soar bastante superficial para os mais exigentes, pois o roteiro não tem tempo de se aprofundar no desenvolvimento dos ótimos personagens de Mirren e McKellen e muito menos em tudo que os rodeiam - as peças que precisávamos para fechar o quebra-cabeça certamente estariam lá se o roteiro fosse melhor (ou se a história proporcionasse isso de uma maneira mais inteligente), não é o caso! Não que o filme seja ruim, não é isso, mas essas tramas secundárias são tão mal desenvolvidas que pouco se aproveita no plot principal, que é o que realmente interessa - é a conexão que é fraca, não o fato delas existirem. Um bom exemplo é o relacionamento de Betty com o seu sobrinho Stephen (Russell Tovey, do excelente "Years and Years" da HBO) - ele some e aparece ao melhor estilo "Mestre dos Magos" e nada dessa relação justificaria a entrega que o filme faz no ato final - a grande verdade é que, depois da conclusão do filme, temos a sensação de que o roteirista roubou no jogo pela simples intenção de nos surpreender com um plot twist que não é ruim, mas que poderia ser muito melhor se as pistas já tivessem sido apresentadas.

Sobre o filme em si, posso dizer que é bem dirigido pelo ótimo Bill Condon (Bela e a Fera) - ele consegue criar uma certa tensão, mesmo abusando de conceitos menos criativos e já ultrapassados como a sombra na porta da cozinha no meio da madrugada azul americana que assusta a velinha indefesa ou o didatismo de um close que vai explicar (ou entregar) sua consequência um pouco mais a frente! Ao sair da sessão, me faz pensar que esse filme na mão de um Davd Fincher poderia ser bem mais intrigante, não sei! Mirren e McKellen dão força aos personagens com muita competência, mas infelizmente caem nos buracos que o roteiro tem. A fotografia do alemão Tobias A. Schliessler ("O Quinto Poder") é muito interessante, principalmente nas cenas externas de Londres e Berlin - para quem assistiu o trailer, a cena do metrô de Londres é boa mesmo!

O fato é que "A Grande Mentira" poderia ser um bom filme para alugarmos nas locadoras (se elas ainda existissem) - digo isso pela sua característica como entretenimento, pela forma como foi filmada e, principalmente, pelas escolhas de um roteiro extremamente datado. Uma hora e meia de entretenimento está garantido, uma ou outra surpresa também, mas não espere mais que isso. Bom para um sábado chuvoso e se dormir, dormiu!

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A História Pessoal de David Copperfield

Antes de mais nada é preciso alertar os mais desavisados: "A História Pessoal de David Copperfield" não é sobre o mágico e sim sobre o clássico personagem de Charles Dickens! Pode até parecer engraçado esse aviso, mas é justamente ele que vai alinhar as expectativas para o que veremos adiante em quase duas horas de filme: uma adaptação inteligente na sua escrita e com um conceito visual extremamente lúdico, porém basicamente teatral - muito usado nas adaptações para a tela de musicais da Broadway.

"The Personal History of David Copperfield" segue fielmente a premissa do romance original. Ambientada no século XIX, essa é a história do jovem David Copperfield (Dev Patel), órfão de pai e vivendo na miséria, que tenta superar todos os obstáculos para conseguir a vida que acredita merecer. Confira o trailer (em inglês):

O impacto visual do filme é imediato, porém o tom escolhido para contar essa história parece tirado de um espetáculo de teatro - das composições cênicas ao estilo mais caricato das interpretações, obviamente passando pelo cenário, pelo figurino e até pela fotografia do premiado diretor Zac Nicholson. E aqui cabe uma curiosidade: Nicholson foi da equipe de fotografia da adaptação para o cinema de Tom Hooper para "Les Miserables" e é muito fácil encontrar inúmeras referências entre as duas obras em todo conceito estético. Com um elenco carregado de pesos-pesados como Tilda Swinton (a Betsey Trotwood) e Hugh Laurie (o impagável Mr Dick) o roteiro se apropria do talento para impor um tom leve e facilmente cativante para assuntos tão complexos - em muitos momentos temos a nítida impressão que estamos assistindo um espetáculo de commedia dell'arte. Dev Patel como protagonista está perfeito - ao lidar com figuras cada vez mais excêntricas, ele transforma a sua inocência em humanidade de um forma impressionante. Digna de prêmios!

Partindo de uma série de piadas inteligentes, cheias de duplo sentido e trocadilhos divertidos, o filme parece até não engatar - já que o peso dramático praticamente se desfaz com a forma escolhida para contar a história. isso não é necessariamente um problema para quem conhece a literatura de Dickens, mas certamente vai afastar um público preocupado com conflitos menos existenciais. O diretor Armando Iannucci, conhecido por sátiras políticas como "A Morte de Stalin" e a premiada série "Veep", da HBO usa e abusa de transições criativas e de uma montagem bastante dinâmica para minimizar o peso literário da obra - as vezes funciona, outras nem tanto!

O fato é que "A História Pessoal de David Copperfield" não vai agradar a todos, mas para os amantes da literatura clássica e do teatro inglês, o filme entrega uma excelente jornada de superação e otimismo sem ser piegas - existe muita honestidade nos personagens, mesmo que esteriotipados pelo conceito narrativo e visual. Continua sendo um drama, mas fantasiado de comédia e para um público bastante específico.

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Antes de mais nada é preciso alertar os mais desavisados: "A História Pessoal de David Copperfield" não é sobre o mágico e sim sobre o clássico personagem de Charles Dickens! Pode até parecer engraçado esse aviso, mas é justamente ele que vai alinhar as expectativas para o que veremos adiante em quase duas horas de filme: uma adaptação inteligente na sua escrita e com um conceito visual extremamente lúdico, porém basicamente teatral - muito usado nas adaptações para a tela de musicais da Broadway.

"The Personal History of David Copperfield" segue fielmente a premissa do romance original. Ambientada no século XIX, essa é a história do jovem David Copperfield (Dev Patel), órfão de pai e vivendo na miséria, que tenta superar todos os obstáculos para conseguir a vida que acredita merecer. Confira o trailer (em inglês):

O impacto visual do filme é imediato, porém o tom escolhido para contar essa história parece tirado de um espetáculo de teatro - das composições cênicas ao estilo mais caricato das interpretações, obviamente passando pelo cenário, pelo figurino e até pela fotografia do premiado diretor Zac Nicholson. E aqui cabe uma curiosidade: Nicholson foi da equipe de fotografia da adaptação para o cinema de Tom Hooper para "Les Miserables" e é muito fácil encontrar inúmeras referências entre as duas obras em todo conceito estético. Com um elenco carregado de pesos-pesados como Tilda Swinton (a Betsey Trotwood) e Hugh Laurie (o impagável Mr Dick) o roteiro se apropria do talento para impor um tom leve e facilmente cativante para assuntos tão complexos - em muitos momentos temos a nítida impressão que estamos assistindo um espetáculo de commedia dell'arte. Dev Patel como protagonista está perfeito - ao lidar com figuras cada vez mais excêntricas, ele transforma a sua inocência em humanidade de um forma impressionante. Digna de prêmios!

Partindo de uma série de piadas inteligentes, cheias de duplo sentido e trocadilhos divertidos, o filme parece até não engatar - já que o peso dramático praticamente se desfaz com a forma escolhida para contar a história. isso não é necessariamente um problema para quem conhece a literatura de Dickens, mas certamente vai afastar um público preocupado com conflitos menos existenciais. O diretor Armando Iannucci, conhecido por sátiras políticas como "A Morte de Stalin" e a premiada série "Veep", da HBO usa e abusa de transições criativas e de uma montagem bastante dinâmica para minimizar o peso literário da obra - as vezes funciona, outras nem tanto!

O fato é que "A História Pessoal de David Copperfield" não vai agradar a todos, mas para os amantes da literatura clássica e do teatro inglês, o filme entrega uma excelente jornada de superação e otimismo sem ser piegas - existe muita honestidade nos personagens, mesmo que esteriotipados pelo conceito narrativo e visual. Continua sendo um drama, mas fantasiado de comédia e para um público bastante específico.

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A Lenda de Candyman

Se você gosta de um bom suspense, com aqueles elementos que já fizeram muito sucesso em filmes de terror na década de 90, que transformam a jornada em algo ainda mais violento e sombrio, e ainda com uma história muito interessante que provoca o inconsciente coletivo e nossa memória afetiva, "A Lenda de Candyman" definitivamente é para você!

Em um bairro pobre de Chicago, a lenda de um espírito assassino conhecido como Candyman (Tony Todd) assolou a população anos atrás, aterrorizando os moradores do complexo habitacional de Cabini-Green. Agora, o local foi renovado e é lar de cidadãos de alta classe, na sua maioria brancos. O artista visual Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen III) e sua namorada, diretora da galeria, Brianna Cartwright (Teyona Parris), se mudam para Cabrini, onde Anthony encontra uma nova fonte de inspiração para sua próxima exposição. Mas quando o espírito maligno retorna, os novos habitantes também são obrigados a enfrentar a ira de Candyman. Confira o trailer:

Antes de mais nada é preciso contextualizar "A Lenda de Candyman" na linha do tempo: durante a década de 90 foram feitos três filmes a partir do conto "The Forbidden", do escritor britânico Clive Barker - pelas mãos do diretor Bernard Rose (de "Minha Amada Imortal"), e do ator Tony Todd, foi que Candyman se tomou conhecido do grande público. O personagem foi tirado da Inglaterra e levado para os Estados Unidos de 1992, onde sofreu algumas adaptações que impactaram na sua mitologia até hoje: o cenário que era um decadente conjunto habitacional de classe média se tornou um conjunto habitacional marginalizado; sua raça ganhou força ao ser apresentado como um homem negro, enquanto entidade é um reflexo de um crime de ódio que passou a ser movido por vingança e que se apoia na violência para deixar sua mensagem.

Pois bem, o filme original, "O Mistério de Candyman", sem a menor dúvida enriqueceu a obra de Barker e inovou ao ir além de um conto de terror sobre lendas urbanas para incorporar discussões sobre o preconceito e exclusão. Como os outros dois filmes, "Candyman 2: A Vingança" e "Candyman 3: Dia dos Mortos" reduziram o personagem a mais um assassino slasher, por favor, desconsiderem; mas em relação ao primeiro, o respeito da diretora Nia DaCosta (Passando dos Limites) e dos produtores (e roteiristas) Jordan Peele ("Corra" e "Nós") e Win Rosenfeld (Infiltrados na Klan), entrelaçando as duas histórias ao ponto de recriar representações conceituais em um belíssimo teatro de sombras, acabam nos mostrando um universo cheio de detalhes que colocam uma franquia adormecida (quase esquecida) em outro patamar. 

Mas é preciso assistir ao primeiro filme? Não, mas caso o faça, sua experiência será mais rica - até porquê existe um certo espelhamento entre os protagonistas: o Anthony McCoy de hoje e a Helen Lyle (Virginia Madsen) de 92. O fato é que a história de "A Lenda de Candyman" se conta sozinha, sem esquecer do seu legado, claro, mas de uma forma coerente e muito inteligente. Bem dirigido e com um desenho de som que funciona perfeitamente como gatilhos emocionais sem exagerar na dose, o filme é uma aula de gramática cinematográfica de gênero e um entretenimento da melhor qualidade. Confesso o meu receio desde que assisti o primeiro trailer, porém te tranquilizo: o filme é supreendentemente bom!

Vale o seu play!

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Se você gosta de um bom suspense, com aqueles elementos que já fizeram muito sucesso em filmes de terror na década de 90, que transformam a jornada em algo ainda mais violento e sombrio, e ainda com uma história muito interessante que provoca o inconsciente coletivo e nossa memória afetiva, "A Lenda de Candyman" definitivamente é para você!

Em um bairro pobre de Chicago, a lenda de um espírito assassino conhecido como Candyman (Tony Todd) assolou a população anos atrás, aterrorizando os moradores do complexo habitacional de Cabini-Green. Agora, o local foi renovado e é lar de cidadãos de alta classe, na sua maioria brancos. O artista visual Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen III) e sua namorada, diretora da galeria, Brianna Cartwright (Teyona Parris), se mudam para Cabrini, onde Anthony encontra uma nova fonte de inspiração para sua próxima exposição. Mas quando o espírito maligno retorna, os novos habitantes também são obrigados a enfrentar a ira de Candyman. Confira o trailer:

Antes de mais nada é preciso contextualizar "A Lenda de Candyman" na linha do tempo: durante a década de 90 foram feitos três filmes a partir do conto "The Forbidden", do escritor britânico Clive Barker - pelas mãos do diretor Bernard Rose (de "Minha Amada Imortal"), e do ator Tony Todd, foi que Candyman se tomou conhecido do grande público. O personagem foi tirado da Inglaterra e levado para os Estados Unidos de 1992, onde sofreu algumas adaptações que impactaram na sua mitologia até hoje: o cenário que era um decadente conjunto habitacional de classe média se tornou um conjunto habitacional marginalizado; sua raça ganhou força ao ser apresentado como um homem negro, enquanto entidade é um reflexo de um crime de ódio que passou a ser movido por vingança e que se apoia na violência para deixar sua mensagem.

Pois bem, o filme original, "O Mistério de Candyman", sem a menor dúvida enriqueceu a obra de Barker e inovou ao ir além de um conto de terror sobre lendas urbanas para incorporar discussões sobre o preconceito e exclusão. Como os outros dois filmes, "Candyman 2: A Vingança" e "Candyman 3: Dia dos Mortos" reduziram o personagem a mais um assassino slasher, por favor, desconsiderem; mas em relação ao primeiro, o respeito da diretora Nia DaCosta (Passando dos Limites) e dos produtores (e roteiristas) Jordan Peele ("Corra" e "Nós") e Win Rosenfeld (Infiltrados na Klan), entrelaçando as duas histórias ao ponto de recriar representações conceituais em um belíssimo teatro de sombras, acabam nos mostrando um universo cheio de detalhes que colocam uma franquia adormecida (quase esquecida) em outro patamar. 

Mas é preciso assistir ao primeiro filme? Não, mas caso o faça, sua experiência será mais rica - até porquê existe um certo espelhamento entre os protagonistas: o Anthony McCoy de hoje e a Helen Lyle (Virginia Madsen) de 92. O fato é que a história de "A Lenda de Candyman" se conta sozinha, sem esquecer do seu legado, claro, mas de uma forma coerente e muito inteligente. Bem dirigido e com um desenho de som que funciona perfeitamente como gatilhos emocionais sem exagerar na dose, o filme é uma aula de gramática cinematográfica de gênero e um entretenimento da melhor qualidade. Confesso o meu receio desde que assisti o primeiro trailer, porém te tranquilizo: o filme é supreendentemente bom!

Vale o seu play!

Assista Agora

A Lenda do Cavaleiro Verde

"A Lenda do Cavaleiro Verde" é um belíssimo filme, cheio de simbolismo e que retrata a jornada de um homem em busca de auto-conhecimento e que acaba encontrando na reciprocidade as respostas do real significado de "honra". Dirigido pelo talentoso David Lowery, do profundo e cheio de identidade, "A Ghost Story", essa adaptação do conto "Sir Gawain and the Green Knight" é muito mais um profundo drama existencial do que um épico de ação e aventura - mesmo com muitos elementos de fantasia inseridos em um roteiro simplesmente fabuloso, mas difícil (que vai exigir uma busca incansável por interpretações e teorias ao melhor estilo "Mãe!" do Darren Aronofsky).

Sir Gawain (Dev Patel) é um jovem que almeja ser um cavaleiro e que vive à sombra de seu tio, o poderoso Rei Arthur (Sean Harris). Na noite de Natal, uma criatura conhecida como o Cavaleiro Verde (Ralph Ineson) faz um desafio e Gawain aceita, entrando em uma jornada de descoberta e crescimento. Confira o trailer (em inglês):

Apenas para alinharmos as expectativas, é preciso que se diga que o diretor David Lowery tem como característica bastante marcante, imergir pelas mais profundas camadas de um personagem e até criar uma certa relação de enfrentamento com esses fantasmas mais íntimos - essa personalidade cinematográfica, naturalmente, transforma suas narrativas em um processo de identificação mais lento, onde a dinâmica textual se apega muito mais aos detalhes do que ao movimento - digo isso, pois se você está esperando as batalhas medievais de "O Último Duelo"você vai se decepcionar, já que "A Lenda do Cavaleiro Verde" está muito mais para "A Tragédia de Macbeth".

Talvez o maior mérito do roteiro, seja justamente a característica que mais pode afastar a audiência (ou, no mínimo, dividir suas opinões): não estamos falando de um filme onde as perguntas ou as respostas são fáceis. Você não vai encontrar algo claro ou explícito e muito menos entenderá imediatamente o significado de alguns elementos lendários que aparecem pelo caminho de Sir Gawain. Por exemplo: no capítulo "cortesia", Gawain encontra uma cabana que parece abandonada há muito tempo, nela ele se depara com Winifred - e aí vem a riqueza da narrativa: "Winifred" ou Santa Vinifrida (em português) foi uma mártir galesa do século VII que teve a cabeça separada do seu corpo e jogada em um lago, onde depois foi recuperada e ela teria voltado à vida. Esse lago passou a se chamar Holyhead ou Holywell no País de Gales, e acredita-se ter poderes de cura. Você sabia disso? Pois é, eu também não, mas não é incrível enriquecer uma narrativa com tantos elementos desconhecidos e que depois de um aprofundamento maior coloca a história em outro patamar?

"A Lenda do Cavaleiro Verde" tem muito disso: um roteiro complexo, uma direção impecável e atuações "nível Oscar" - Dev Patel mais uma vez está fantástico, seu trabalho de introspecção é algo para se aplaudir de pé e, no mesmo nível, uma Alicia Vikander espetacular para contracenar. Veja, esse é o tipo de filme que nos faz refletir, que nos provoca e que abdica da ação para nos contar uma história de crescimento individual que vai além do que vemos na tela - nada estará em cena por acaso e, do fundo do coração, a experiência de buscar essas repostas é tão empolgante quanto a do protagonista.

Não acho que "A Lenda do Cavaleiro Verde" sirva como um simples entretenimento - o filme segue um caminho que vai além da nossa compreensão inicial, mas que, dispostos a enxergar, nos entrega um conhecimento muito além do óbvio. Vale muito a pena! 

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"A Lenda do Cavaleiro Verde" é um belíssimo filme, cheio de simbolismo e que retrata a jornada de um homem em busca de auto-conhecimento e que acaba encontrando na reciprocidade as respostas do real significado de "honra". Dirigido pelo talentoso David Lowery, do profundo e cheio de identidade, "A Ghost Story", essa adaptação do conto "Sir Gawain and the Green Knight" é muito mais um profundo drama existencial do que um épico de ação e aventura - mesmo com muitos elementos de fantasia inseridos em um roteiro simplesmente fabuloso, mas difícil (que vai exigir uma busca incansável por interpretações e teorias ao melhor estilo "Mãe!" do Darren Aronofsky).

Sir Gawain (Dev Patel) é um jovem que almeja ser um cavaleiro e que vive à sombra de seu tio, o poderoso Rei Arthur (Sean Harris). Na noite de Natal, uma criatura conhecida como o Cavaleiro Verde (Ralph Ineson) faz um desafio e Gawain aceita, entrando em uma jornada de descoberta e crescimento. Confira o trailer (em inglês):

Apenas para alinharmos as expectativas, é preciso que se diga que o diretor David Lowery tem como característica bastante marcante, imergir pelas mais profundas camadas de um personagem e até criar uma certa relação de enfrentamento com esses fantasmas mais íntimos - essa personalidade cinematográfica, naturalmente, transforma suas narrativas em um processo de identificação mais lento, onde a dinâmica textual se apega muito mais aos detalhes do que ao movimento - digo isso, pois se você está esperando as batalhas medievais de "O Último Duelo"você vai se decepcionar, já que "A Lenda do Cavaleiro Verde" está muito mais para "A Tragédia de Macbeth".

Talvez o maior mérito do roteiro, seja justamente a característica que mais pode afastar a audiência (ou, no mínimo, dividir suas opinões): não estamos falando de um filme onde as perguntas ou as respostas são fáceis. Você não vai encontrar algo claro ou explícito e muito menos entenderá imediatamente o significado de alguns elementos lendários que aparecem pelo caminho de Sir Gawain. Por exemplo: no capítulo "cortesia", Gawain encontra uma cabana que parece abandonada há muito tempo, nela ele se depara com Winifred - e aí vem a riqueza da narrativa: "Winifred" ou Santa Vinifrida (em português) foi uma mártir galesa do século VII que teve a cabeça separada do seu corpo e jogada em um lago, onde depois foi recuperada e ela teria voltado à vida. Esse lago passou a se chamar Holyhead ou Holywell no País de Gales, e acredita-se ter poderes de cura. Você sabia disso? Pois é, eu também não, mas não é incrível enriquecer uma narrativa com tantos elementos desconhecidos e que depois de um aprofundamento maior coloca a história em outro patamar?

"A Lenda do Cavaleiro Verde" tem muito disso: um roteiro complexo, uma direção impecável e atuações "nível Oscar" - Dev Patel mais uma vez está fantástico, seu trabalho de introspecção é algo para se aplaudir de pé e, no mesmo nível, uma Alicia Vikander espetacular para contracenar. Veja, esse é o tipo de filme que nos faz refletir, que nos provoca e que abdica da ação para nos contar uma história de crescimento individual que vai além do que vemos na tela - nada estará em cena por acaso e, do fundo do coração, a experiência de buscar essas repostas é tão empolgante quanto a do protagonista.

Não acho que "A Lenda do Cavaleiro Verde" sirva como um simples entretenimento - o filme segue um caminho que vai além da nossa compreensão inicial, mas que, dispostos a enxergar, nos entrega um conhecimento muito além do óbvio. Vale muito a pena! 

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A Luz entre Oceanos

Derek Cianfrance (de "Blue Vallentine") é um dos melhores diretores da sua geração! O cara manda muito bem, a câmera está sempre no lugar certo, para contar a história que tem que ser contada! Em "A Luz entre Oceanos" ele mais uma vez está impecável para contara a história de Tom Sherbourne (Michael Fassbender) e a sua esposa Isabel (Alicia Vikander), um casal feliz que vive em uma ilha na costa da Austrália, no período após a Primeira Guerra Mundial. O maior desejo de Tom e Isabel é ter um filho, mas depois de Isabel abortar algumas vezes, eles acabam perdendo a esperança. No entanto, um dia o casal resgata uma menina em um barco, provavelmente resultado de um naufrágio. Os dois decidem chamá-la de Lucy e adotá-la como filha. Após alguns anos de felicidade, Tom e Isabel, em uma visita ao continente, encontram a viúva Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz) que perdeu o marido e a filha no mar. Fica claro para Tom que Lucy é, na verdade, filha de Hannah, e ele sente que é o seu dever devolver a criança à mãe. Mas Isabel não quer que a sua família seja destruída por uma crise de consciência do marido. A partir daí, um maravilhoso sonho se transforma em um terrível pesadelo, trazendo à tona questões difíceis sobre o casamento e a paternidade. Confira o trailer:

"A Luz entre Oceanos" é lindamente bem fotografado pelo diretor Adam Arkapaw (True Detective) e tem um trilha sonora digna de Oscar do, 10 vezes indicado, Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres) - ele venceu duas vezes com "O Grande Hotel Budapeste" e "A Forma da Água". Embora tenha vencido o Festival de Veneza em 2016, o filme me deu a sensação que se tivesse 15 minutos a menos tudo terminaria melhor. Na verdade não sei se é só uma opinião pessoal, certa ou errada, mas quando me entregam demais acabo ficando com preguiça de me envolver tanto. Mas e o público, será que não prefere algo mais fácil? Talvez achar o equilíbrio seja o melhor caminho, talvez o roteiro do próprio Cianfrance, baseado no livro de M.L. Stedman, tenha feito essa escolha, mas para mim ficou a nítida impressão que o filme poderia ter me levado mais longe, porque a história é muito envolvente de fato, mas são aconteceu - ele acabou não me permitindo discutir sobre o final, sobre as escolhas, sobre a história em si!

Eu gostei do filme, ele poético, profundo e visceral em muitos momentos. Para quem acompanha o diretor, o filme é imperdível! Se você gostou de "Blue Valentine" certamente vai encontrar a marca de Cianfrance nesse filme! Não é um filme muito dinâmico, mas mesmo assim vale à pena - só não espere algo que te surpreenda!

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Derek Cianfrance (de "Blue Vallentine") é um dos melhores diretores da sua geração! O cara manda muito bem, a câmera está sempre no lugar certo, para contar a história que tem que ser contada! Em "A Luz entre Oceanos" ele mais uma vez está impecável para contara a história de Tom Sherbourne (Michael Fassbender) e a sua esposa Isabel (Alicia Vikander), um casal feliz que vive em uma ilha na costa da Austrália, no período após a Primeira Guerra Mundial. O maior desejo de Tom e Isabel é ter um filho, mas depois de Isabel abortar algumas vezes, eles acabam perdendo a esperança. No entanto, um dia o casal resgata uma menina em um barco, provavelmente resultado de um naufrágio. Os dois decidem chamá-la de Lucy e adotá-la como filha. Após alguns anos de felicidade, Tom e Isabel, em uma visita ao continente, encontram a viúva Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz) que perdeu o marido e a filha no mar. Fica claro para Tom que Lucy é, na verdade, filha de Hannah, e ele sente que é o seu dever devolver a criança à mãe. Mas Isabel não quer que a sua família seja destruída por uma crise de consciência do marido. A partir daí, um maravilhoso sonho se transforma em um terrível pesadelo, trazendo à tona questões difíceis sobre o casamento e a paternidade. Confira o trailer:

"A Luz entre Oceanos" é lindamente bem fotografado pelo diretor Adam Arkapaw (True Detective) e tem um trilha sonora digna de Oscar do, 10 vezes indicado, Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres) - ele venceu duas vezes com "O Grande Hotel Budapeste" e "A Forma da Água". Embora tenha vencido o Festival de Veneza em 2016, o filme me deu a sensação que se tivesse 15 minutos a menos tudo terminaria melhor. Na verdade não sei se é só uma opinião pessoal, certa ou errada, mas quando me entregam demais acabo ficando com preguiça de me envolver tanto. Mas e o público, será que não prefere algo mais fácil? Talvez achar o equilíbrio seja o melhor caminho, talvez o roteiro do próprio Cianfrance, baseado no livro de M.L. Stedman, tenha feito essa escolha, mas para mim ficou a nítida impressão que o filme poderia ter me levado mais longe, porque a história é muito envolvente de fato, mas são aconteceu - ele acabou não me permitindo discutir sobre o final, sobre as escolhas, sobre a história em si!

Eu gostei do filme, ele poético, profundo e visceral em muitos momentos. Para quem acompanha o diretor, o filme é imperdível! Se você gostou de "Blue Valentine" certamente vai encontrar a marca de Cianfrance nesse filme! Não é um filme muito dinâmico, mas mesmo assim vale à pena - só não espere algo que te surpreenda!

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A Mulher da Janela

Se você leu o livro que deu origem ao filme "A Mulher na Janela", provavelmente você vai se decepcionar! Se você não leu, você tem 50% de chance de gostar e te explico a razão: o filme tem uma dinâmica narrativa muito particular dos anos 90 e inicio dos anos 2000, uma época onde nossas referências eram bem mais limitadas do que temos hoje, com isso nosso nível de percepção da história era menos rigoroso, o que nos proporcionava ótimos momentos de entretenimento com o gênero como em "Quarto do Pânico", "A Mão Que Balança o Berço" ou "Medo". Dito isso, esse suspense psicológico da Netflix com Amy Adams e Julianne Moore, vai te divertir mas não empolgar como deveria!

“A Mulher na Janela” é uma adaptação do livro homônimo de A.J. Finn que acompanha Anna Fox (Adams), uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia (um tipo de transtorno de ansiedade em que a pessoa tem medo e evita lugares ou situações que podem causar pânico). Confinada em casa e a base da combinação entre remédios e álcool, ela começa a observar pela sua janela a vida aparentemente perfeita dos vizinhos que acabaram de se mudar para o prédio da frente. Um dia, ela acaba sendo testemunha de um crime violento e isso vira sua vida de cabeça para baixo. Confira o trailer:

Desde seu anúncio, "A Mulher na Janela" vinha sendo aguardado com muitas expectativas. A premissa "HBO" do filme se justificava pelos nomes envolvidos no projeto: Tracy Letts no roteiro (de "Killer Joe - Matador de Aluguel" e "Álbum de Família"), Joe Wright diretor de “O Destino de Uma Nação“ e um elenco incrível com Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman e Brian Tyree Henry. Pois bem, o fato é que esses talentos todos até funcionam no primeiro ato, criando um clima de suspense, drama e mistério dos melhores, mas que acaba não se sustentando até o final. O segundo ato é mediano e a conclusão muito apressada. Ok, mas isso faz o filme ser ruim? Depende da sua expectativa - como entretenimento é ótimo, você vai se sentir angustiado, provocado pelo mistério e ainda tomar alguns sustos; mas quando os créditos subirem sua mente não estará explodindo!

Veja, a personagem Anna Fox é alcóolatra, viciada em remédios, tem um trauma familiar, é agorafóbica e sofre de alucinações - um personagem complexo e cheio de camadas que funciona nas mão de Adams, mas que se desperdiça no filme pela necessidade de entregar toda a jornada em pouco mais de 90 minutos. Seria uma excelente minissérie, tem muito mistério e personagens orbitais que teriam muito a acrescentar na dinâmica narrativa e na construção de uma trama consistente, além da própria protagonista - basta lembrar de "The Undoing".

O fato é que “A Mulher na Janela” sofre com a expectativa criada, com os nomes envolvidos e com o sucesso do livro. Agora, se você um dia entrou na locadora só para alugar "Invasão de Privacidade", "Dormindo com o Inimigo", "Mulher Solteira Procura"; certamente você vai se divertir com o play!   

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Se você leu o livro que deu origem ao filme "A Mulher na Janela", provavelmente você vai se decepcionar! Se você não leu, você tem 50% de chance de gostar e te explico a razão: o filme tem uma dinâmica narrativa muito particular dos anos 90 e inicio dos anos 2000, uma época onde nossas referências eram bem mais limitadas do que temos hoje, com isso nosso nível de percepção da história era menos rigoroso, o que nos proporcionava ótimos momentos de entretenimento com o gênero como em "Quarto do Pânico", "A Mão Que Balança o Berço" ou "Medo". Dito isso, esse suspense psicológico da Netflix com Amy Adams e Julianne Moore, vai te divertir mas não empolgar como deveria!

“A Mulher na Janela” é uma adaptação do livro homônimo de A.J. Finn que acompanha Anna Fox (Adams), uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia (um tipo de transtorno de ansiedade em que a pessoa tem medo e evita lugares ou situações que podem causar pânico). Confinada em casa e a base da combinação entre remédios e álcool, ela começa a observar pela sua janela a vida aparentemente perfeita dos vizinhos que acabaram de se mudar para o prédio da frente. Um dia, ela acaba sendo testemunha de um crime violento e isso vira sua vida de cabeça para baixo. Confira o trailer:

Desde seu anúncio, "A Mulher na Janela" vinha sendo aguardado com muitas expectativas. A premissa "HBO" do filme se justificava pelos nomes envolvidos no projeto: Tracy Letts no roteiro (de "Killer Joe - Matador de Aluguel" e "Álbum de Família"), Joe Wright diretor de “O Destino de Uma Nação“ e um elenco incrível com Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman e Brian Tyree Henry. Pois bem, o fato é que esses talentos todos até funcionam no primeiro ato, criando um clima de suspense, drama e mistério dos melhores, mas que acaba não se sustentando até o final. O segundo ato é mediano e a conclusão muito apressada. Ok, mas isso faz o filme ser ruim? Depende da sua expectativa - como entretenimento é ótimo, você vai se sentir angustiado, provocado pelo mistério e ainda tomar alguns sustos; mas quando os créditos subirem sua mente não estará explodindo!

Veja, a personagem Anna Fox é alcóolatra, viciada em remédios, tem um trauma familiar, é agorafóbica e sofre de alucinações - um personagem complexo e cheio de camadas que funciona nas mão de Adams, mas que se desperdiça no filme pela necessidade de entregar toda a jornada em pouco mais de 90 minutos. Seria uma excelente minissérie, tem muito mistério e personagens orbitais que teriam muito a acrescentar na dinâmica narrativa e na construção de uma trama consistente, além da própria protagonista - basta lembrar de "The Undoing".

O fato é que “A Mulher na Janela” sofre com a expectativa criada, com os nomes envolvidos e com o sucesso do livro. Agora, se você um dia entrou na locadora só para alugar "Invasão de Privacidade", "Dormindo com o Inimigo", "Mulher Solteira Procura"; certamente você vai se divertir com o play!   

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A pé ele não vai longe

"A pé ele não vai longe" é, na verdade, um recorte biográfico do cartunista americano John Callahan - o que transforma a obra em um "filme de personagem" que usa e abusa da capacidade de Joaquin Phoenix para contar uma história cheia de camadas, conduzida por um diretor talentoso como Gus Van Sant (de "Gênio Indomável"), mas com uma narrativa truncada, fragmentada e difícil de se conectar (principalmente para nós brasileiros que não conhecemos o personagem). Por outro lado, o roteiro é muito feliz em mostrar a transformação de uma figura perdida na vida em uma referência artística para uma geração, que usou do humor e da ironia para discutir temas sensíveis como o racismo, a sexualidade e a deficiência física. Na linha do "ame ou odeie", esse é mais um daqueles filmes onde o personagem se confunde com a própria história!

Na trajetória difícil para a sobriedade, após um acidente que mudou sua vida, John Callahan (Joaquin Phoenix) descobre o poder curativo da arte, permitindo que suas mãos lesionadas criem desenhos arrojados, hilários e muitas vezes polêmicos, proporcionando para ele fama e uma nova perspectiva de futuro. Confira o trailer:

Inicialmente a montagem do próprio Gus Van Sant pode causar um certo estranhamento, já que a quebra de linearidade temporal é dinâmica e se repete de maneira extremamente orgânica a todo momento. Esse conceito narrativo, inclusive, ajuda a criar um universo bastante particular já que os personagens parecem estereotipados, sempre um tom acima - John Callahan, por exemplo, parece uma caricatura de si mesmo com seu cabelo laranja e um figurino setentista cheio de cores e estampas; ou até Donnie Green (Jonah Hill), uma espécie de padrinho e tutor emocional de Callahan, com sua caracterização quase divina, um tom de voz manso, mesmo quando faz discursos mais críticos, equilibrando uma certa passividade com uma agressividade cheia de contradições. O fato é que funciona como alegoria, mas nos dá uma sensação de distanciamento da realidade.

Um detalhe que me soou bastante interessante diz respeito ao posicionamento do roteiro em assumir uma postura neutra quanto a defender ou acusar Callahan de seus excessos - e aqui não falo apenas do álcool. A personalidade complexa do protagonista nos provoca toda hora, já que em muitos momentos o enxergamos como um gênio, em outros como um frustrado e pessimista; em várias passagens ele é grosseiro, mas pontualmente é também encantador - a verdade é que o julgamento (e não serão poucos) está nas nossas mãos como audiência. Reparem na cena em que Callahan conversa com uma especialista sobre sexo para pessoas paraplégicas e depois em como ele se relaciona com Annu (Rooney Mara).

Apesar das cenas tristes, naturalmente previstas devido ao drama da paralisia, o tom de "A pé ele não vai longe" é relativamente leve. Temos algumas cenas bem divertidas de superação, como a luta de Callahan para cumprir seu tratamento de "12 passos para a sobriedade", e outras extremamente emotivas como o discurso de Donnie Green ou a conversa, anos depois, entre o protagonista e o homem que causou seu acidente. Eu diria, com a maior tranquilidade, que mesmo tentando escapar do "piegas", Van Sant não deixa de entregar um belo filme sobre o verdadeiro valor da vida, mas com aquele toque bastante autoral.

Vale seu play!

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"A pé ele não vai longe" é, na verdade, um recorte biográfico do cartunista americano John Callahan - o que transforma a obra em um "filme de personagem" que usa e abusa da capacidade de Joaquin Phoenix para contar uma história cheia de camadas, conduzida por um diretor talentoso como Gus Van Sant (de "Gênio Indomável"), mas com uma narrativa truncada, fragmentada e difícil de se conectar (principalmente para nós brasileiros que não conhecemos o personagem). Por outro lado, o roteiro é muito feliz em mostrar a transformação de uma figura perdida na vida em uma referência artística para uma geração, que usou do humor e da ironia para discutir temas sensíveis como o racismo, a sexualidade e a deficiência física. Na linha do "ame ou odeie", esse é mais um daqueles filmes onde o personagem se confunde com a própria história!

Na trajetória difícil para a sobriedade, após um acidente que mudou sua vida, John Callahan (Joaquin Phoenix) descobre o poder curativo da arte, permitindo que suas mãos lesionadas criem desenhos arrojados, hilários e muitas vezes polêmicos, proporcionando para ele fama e uma nova perspectiva de futuro. Confira o trailer:

Inicialmente a montagem do próprio Gus Van Sant pode causar um certo estranhamento, já que a quebra de linearidade temporal é dinâmica e se repete de maneira extremamente orgânica a todo momento. Esse conceito narrativo, inclusive, ajuda a criar um universo bastante particular já que os personagens parecem estereotipados, sempre um tom acima - John Callahan, por exemplo, parece uma caricatura de si mesmo com seu cabelo laranja e um figurino setentista cheio de cores e estampas; ou até Donnie Green (Jonah Hill), uma espécie de padrinho e tutor emocional de Callahan, com sua caracterização quase divina, um tom de voz manso, mesmo quando faz discursos mais críticos, equilibrando uma certa passividade com uma agressividade cheia de contradições. O fato é que funciona como alegoria, mas nos dá uma sensação de distanciamento da realidade.

Um detalhe que me soou bastante interessante diz respeito ao posicionamento do roteiro em assumir uma postura neutra quanto a defender ou acusar Callahan de seus excessos - e aqui não falo apenas do álcool. A personalidade complexa do protagonista nos provoca toda hora, já que em muitos momentos o enxergamos como um gênio, em outros como um frustrado e pessimista; em várias passagens ele é grosseiro, mas pontualmente é também encantador - a verdade é que o julgamento (e não serão poucos) está nas nossas mãos como audiência. Reparem na cena em que Callahan conversa com uma especialista sobre sexo para pessoas paraplégicas e depois em como ele se relaciona com Annu (Rooney Mara).

Apesar das cenas tristes, naturalmente previstas devido ao drama da paralisia, o tom de "A pé ele não vai longe" é relativamente leve. Temos algumas cenas bem divertidas de superação, como a luta de Callahan para cumprir seu tratamento de "12 passos para a sobriedade", e outras extremamente emotivas como o discurso de Donnie Green ou a conversa, anos depois, entre o protagonista e o homem que causou seu acidente. Eu diria, com a maior tranquilidade, que mesmo tentando escapar do "piegas", Van Sant não deixa de entregar um belo filme sobre o verdadeiro valor da vida, mas com aquele toque bastante autoral.

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A última coisa que ele queria

"A última coisa que ele queria" chegou no catálogo da Netflix com algumas credenciais importantes: tinha no seu comando uma diretora extremamente competente, Dee Rees (de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi); um elenco com nomes de muito peso como: Anne Hathaway, Ben Affleck e Willem Dafoe; e para finalizar, era baseado em um livro que, mesmo sem tanta projeção, parecia servir como uma excelente premissa para um ótimo filme de ação com elementos dramáticos, políticos, históricos e até jornalísticos - um pouco na linha de "Argo"!

Confira o trailer:

Mesmo com tudo isso a favor, o filme tem problemas sérios de roteiro - são muitos detalhes (históricos, inclusive) que não dá tempo de desenvolver, explicar e até organizar dentro de um arco consistente: a história de uma repórter, Elena McMahon (Anne Hathaway), que investiga uma conspiração politica envolvendo contrabando de armas e que, por acaso, acaba se envolvendo nessas negociações em uma América Central marcada pela guerra miliciana; merecia, pelo menos, mais umas duas ou três horas! O filme não é ruim, mas eu tenho que admitir que esperava mais - talvez se fosse mesmo uma minissérie, teríamos um excelente entretenimento disponível, como é um filme, o resultado ficou apenas mediano!

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"A última coisa que ele queria" chegou no catálogo da Netflix com algumas credenciais importantes: tinha no seu comando uma diretora extremamente competente, Dee Rees (de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi); um elenco com nomes de muito peso como: Anne Hathaway, Ben Affleck e Willem Dafoe; e para finalizar, era baseado em um livro que, mesmo sem tanta projeção, parecia servir como uma excelente premissa para um ótimo filme de ação com elementos dramáticos, políticos, históricos e até jornalísticos - um pouco na linha de "Argo"!

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Mesmo com tudo isso a favor, o filme tem problemas sérios de roteiro - são muitos detalhes (históricos, inclusive) que não dá tempo de desenvolver, explicar e até organizar dentro de um arco consistente: a história de uma repórter, Elena McMahon (Anne Hathaway), que investiga uma conspiração politica envolvendo contrabando de armas e que, por acaso, acaba se envolvendo nessas negociações em uma América Central marcada pela guerra miliciana; merecia, pelo menos, mais umas duas ou três horas! O filme não é ruim, mas eu tenho que admitir que esperava mais - talvez se fosse mesmo uma minissérie, teríamos um excelente entretenimento disponível, como é um filme, o resultado ficou apenas mediano!

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A Voz mais Forte

Diferente de "O Escândalo", onde o linha narrativa tinha como único foco as denúncias de assédio sexual (e moral) contra o então presidente e fundador da Fox News, Roger Ailes, a partir da iniciativa de Gretchen Carlson (Nicole Kidman) e do apoio de Megyn Kelly (Charlize Theron), ambas ancoras do canal, "A voz mais forte" traz um contexto um pouco mais amplo, muito mais interessante e profundo sobre Ailes, apontando sua capacidade única como executivo de TV, sua enorme influência politica e, claro, seu comportamento deplorável -  Ailes era um personagem tão complexo e ambíguo, que suas ações soam naturais (para ele e para quem o admira cegamente), como se sua genialidade lhe permitisse agir como bem entendesse, com homens e, principalmente, com mulheres.

Os fatos que assistimos em "O Escândalo" representam apenas dois (importantes) episódios da minissérie da Showtime, o que permite construir um perfil mais rigoroso de Roger Ailes, sem a pressa de um longa metragem de duas horas - e isso faz toda diferença na narrativa e também no nosso julgamento, já que não deixa brecha para qualquer tipo de justificativa ou desculpa para o que poderia ser um ato isolado de Ailes. "A voz mais forte" (ou "The Loudest Voice") é baseada no best-seller, The Loudest Voice in the Room, de Gabriel Sherman e conta a história do falecido executivo e fundador da Fox News, se concentrando nas últimas duas décadas, quando Ailes se tornou uma potente voz do Partido Republicano nos EUA ao colocar suas preferências politicas como guia editorial que levou a Fox a se tornar líder de audiência da TV a cabo no segmento de notícias - justamente por isso, as acusações de assédio sexual que vieram à tona em 2016 foram tão impactantes e culminaram no encerramento da sua brilhante carreira prematuramente. Confira o trailer (em inglês):

"A voz mais forte" tem sete episódios de uma hora e retrata alguns anos chave da vida de Ailes , porém o mais bacana é que a vida do executivo vai se misturando com inúmeros fatos marcantes da história recente dos Estados Unidos. A maneira como o roteiro e a edição costuram essas situações dão uma dinâmica incrível para a minissérie e nos ajudam a desvendar a personalidade do protagonista. Vale ressaltar que o diretor vai pontuando o comportamento de Ailes de uma maneira muito discreta e que só vai se intensificando com o passar do tempo - isso nos permite entender exatamente como tudo aconteceu, como um homem idolatrado e respeitado por muitos era, na verdade, um ser humano desprezível!

Se você gostou de "O Escândalo ou de "The Morning Show", "A voz mais forte" é para você! A história vai, de fato, te impactar, tanto pela dinâmica politica e corporativa da jornada, quanto pela construção e queda de um mito quando das denúncias de Gretchen. Olha, mais uma vez será preciso ter estômago, mas como contexto histórico e importância na luta contra o assédio, vai valer muito a pena!

Dirigida por Kari Skogland (famosa por comandar episódios de várias séries de sucesso como The Walking Dead, House of Cards e The Borgias) e adaptada por Tom McCarthy (Spotlight) e Alex Metcalf, "A voz mais forte" é quase perfeita como recorte histórico de uma biografia bastante polêmica. O roteiro foi muito feliz em colocar na voz de Ailes toda a sua forma quase patológica de enxergar o mundo. Um cara que vivia nos extremos, sexista, misógino, racista e dependente de poder e que Russell Crowe deu vida de uma maneira impecável - que aliás lhe rendeu o Globo de Ouro em 2020.

Talvez o roteiro deixe algumas brechas, pois alguns personagens simplesmente desaparecem de uma hora para outra, sem muitas explicações e sem uma conclusão satisfatória - mesmo que essa viesse por legenda no final da minissérie. Aqui cito dois personagens: os ex-VP da Fox Corp. e confidente como Rupert Murdoc (Simon McBurney) e o jovem jornalista contratado para trabalhar com a mulher de Ailes, Beth (Sienna Miller). Ainda sobre o roteiro, se em o "Escândalo", Megyn Kelly (Charlize Theron) era a protagonista e Gretchen Carlson (Nicole Kidman) funcionava apenas como gatilho, em "A voz mais forte", Kelly praticamente não aparece (apenas em imagens de arquivo), deixando todo foco para quem desencadeou as denúncias, ou seja, Carlson (brilhantemente interpretada por Naomi Watts) e, principalmente, para Laurie Luhn, de Annabelle Wallis, que sofreu intensamente nas mãos de Ailes,

Minha impressão é que "A voz mais forte" funciona como um complemento de "O Escândalo" por um outro ponto de vista e muito melhor desenvolvido. Desde agosto de 2019 já comentávamos sobre essa relevante tendência de trazer casos de assédio para a tela e até aqui, a minissérie da Showtime foi a melhor disparado! Gostei muito!

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Diferente de "O Escândalo", onde o linha narrativa tinha como único foco as denúncias de assédio sexual (e moral) contra o então presidente e fundador da Fox News, Roger Ailes, a partir da iniciativa de Gretchen Carlson (Nicole Kidman) e do apoio de Megyn Kelly (Charlize Theron), ambas ancoras do canal, "A voz mais forte" traz um contexto um pouco mais amplo, muito mais interessante e profundo sobre Ailes, apontando sua capacidade única como executivo de TV, sua enorme influência politica e, claro, seu comportamento deplorável -  Ailes era um personagem tão complexo e ambíguo, que suas ações soam naturais (para ele e para quem o admira cegamente), como se sua genialidade lhe permitisse agir como bem entendesse, com homens e, principalmente, com mulheres.

Os fatos que assistimos em "O Escândalo" representam apenas dois (importantes) episódios da minissérie da Showtime, o que permite construir um perfil mais rigoroso de Roger Ailes, sem a pressa de um longa metragem de duas horas - e isso faz toda diferença na narrativa e também no nosso julgamento, já que não deixa brecha para qualquer tipo de justificativa ou desculpa para o que poderia ser um ato isolado de Ailes. "A voz mais forte" (ou "The Loudest Voice") é baseada no best-seller, The Loudest Voice in the Room, de Gabriel Sherman e conta a história do falecido executivo e fundador da Fox News, se concentrando nas últimas duas décadas, quando Ailes se tornou uma potente voz do Partido Republicano nos EUA ao colocar suas preferências politicas como guia editorial que levou a Fox a se tornar líder de audiência da TV a cabo no segmento de notícias - justamente por isso, as acusações de assédio sexual que vieram à tona em 2016 foram tão impactantes e culminaram no encerramento da sua brilhante carreira prematuramente. Confira o trailer (em inglês):

"A voz mais forte" tem sete episódios de uma hora e retrata alguns anos chave da vida de Ailes , porém o mais bacana é que a vida do executivo vai se misturando com inúmeros fatos marcantes da história recente dos Estados Unidos. A maneira como o roteiro e a edição costuram essas situações dão uma dinâmica incrível para a minissérie e nos ajudam a desvendar a personalidade do protagonista. Vale ressaltar que o diretor vai pontuando o comportamento de Ailes de uma maneira muito discreta e que só vai se intensificando com o passar do tempo - isso nos permite entender exatamente como tudo aconteceu, como um homem idolatrado e respeitado por muitos era, na verdade, um ser humano desprezível!

Se você gostou de "O Escândalo ou de "The Morning Show", "A voz mais forte" é para você! A história vai, de fato, te impactar, tanto pela dinâmica politica e corporativa da jornada, quanto pela construção e queda de um mito quando das denúncias de Gretchen. Olha, mais uma vez será preciso ter estômago, mas como contexto histórico e importância na luta contra o assédio, vai valer muito a pena!

Dirigida por Kari Skogland (famosa por comandar episódios de várias séries de sucesso como The Walking Dead, House of Cards e The Borgias) e adaptada por Tom McCarthy (Spotlight) e Alex Metcalf, "A voz mais forte" é quase perfeita como recorte histórico de uma biografia bastante polêmica. O roteiro foi muito feliz em colocar na voz de Ailes toda a sua forma quase patológica de enxergar o mundo. Um cara que vivia nos extremos, sexista, misógino, racista e dependente de poder e que Russell Crowe deu vida de uma maneira impecável - que aliás lhe rendeu o Globo de Ouro em 2020.

Talvez o roteiro deixe algumas brechas, pois alguns personagens simplesmente desaparecem de uma hora para outra, sem muitas explicações e sem uma conclusão satisfatória - mesmo que essa viesse por legenda no final da minissérie. Aqui cito dois personagens: os ex-VP da Fox Corp. e confidente como Rupert Murdoc (Simon McBurney) e o jovem jornalista contratado para trabalhar com a mulher de Ailes, Beth (Sienna Miller). Ainda sobre o roteiro, se em o "Escândalo", Megyn Kelly (Charlize Theron) era a protagonista e Gretchen Carlson (Nicole Kidman) funcionava apenas como gatilho, em "A voz mais forte", Kelly praticamente não aparece (apenas em imagens de arquivo), deixando todo foco para quem desencadeou as denúncias, ou seja, Carlson (brilhantemente interpretada por Naomi Watts) e, principalmente, para Laurie Luhn, de Annabelle Wallis, que sofreu intensamente nas mãos de Ailes,

Minha impressão é que "A voz mais forte" funciona como um complemento de "O Escândalo" por um outro ponto de vista e muito melhor desenvolvido. Desde agosto de 2019 já comentávamos sobre essa relevante tendência de trazer casos de assédio para a tela e até aqui, a minissérie da Showtime foi a melhor disparado! Gostei muito!

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Adoráveis Mulheres

"Adoráveis Mulheres", novo projeto da diretora de "Lady Bird", Greta Gerwig, é uma graça! O filme é mais uma adaptação do livro homônimo de Louisa May Alcott e conta a história das irmãs March, quatro jovens americanas de personalidades completamente diferentes e que vivem em uma família cheia de valores e união. 

O processo de amadurecimento de cada uma delas, sem a presença do pai que luta na Guerra Civil, é o fio narrativo dessa história que fala sobre a essência da vida e como a felicidade pode estar nos pequenos gestos, na simplicidade do dia a dia, na ingenuidade dos sonhos adolescentes e na esperança de uma plenitude eterna - e é isso que nos toca e até nos machuca, pois sabemos que a vida não é bem assim

Transitando do passado para o presente com muita delicadeza e inteligência, Gerwig entrega um filme com alma, que mexe com a gente, mas com muito respeito (como deve ser). Uma aula de sensibilidade para falar sobre saudade, que merece ser aplaudida. Prestem atenção nesse filme - tenho certeza que ele estará no Oscar 2020, inclusive na disputa de melhor filme (ou no mínimo de melhor roteiro adaptado).

"Adoráveis Mulheres" é um destes textos clássicos várias vezes adaptados para o cinema - a mais famosa, contou com Winona Ryder, Susan Sarandon, Christian Bale e Kirsten Dusnt e foi produzida em 1994. Essa versão, dirigida pela australiana Gillian Armstrong, foi indicada para o Oscar em três categorias: melhor atriz (Winona Ryder), figurino e música. Pelo que vimos, o filme de Greta Gerwig tem tudo para se tornar a versão mais premiada da obra, começando pelas atuações marcantes de Saoirse Ronan como Jo March e mais um excelente trabalho de Laura Dern como Marmee March - lembrando que Dern deve ser indicada como coadjuvante por "Cenas de um Casamento". Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen também merecem destaque - foram interpretações honestíssimas, principalmente de Pugh! Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome) é outro que entrega um grande personagem! Tenho a impressão que Saoirse Ronan receberá sua quinta indicação e que Greta Gerwig representará as mulheres em duas categorias: melhor direção e roteiro adaptado!

A fotografia do francés Yorick Le Saux é maravilhosa e pontuada com um tons mais quentes (amarelados) no passado, transbordando alegria e com tons mais frios (azulados) no presente, o que trás uma sensação mais real, da dificuldade da vida, do amadurecimento forçado - aliás, é basicamente na troca de cor e de temperatura que entendemos essa dinâmica de "vai e vem" na linha do tempo - é muito delicado, demora algumas cenas para percebermos, mas depois flui tão naturalmente que fica fácil de acompanhar! A montagem também ajuda nessa organicidade, claro, e, para mim, mereceria uma indicação ao Oscar junto com Desenho de Produção e Figurino. Até entendo se isso não acontecer em todas as categorias, mas é importante deixar registrado que potencial para várias indicações teria! Todos esses elementos técnicos só colaboram na entrega de um filme belíssimo, bem dirigido, bem interpretado e lindo visualmente. A capacidade de Gerwig em nos transportar para a vida dessas quatro mulheres, estabelece uma relação de cumplicidade e empatia que dificilmente vemos nos filmes de hoje com tanta sensibilidade. De fato não é um filme complexo ou com reviravoltas surpreendentes, mas as mais de duas horas de história servem como convite à revisitar nosso passado, nossos laços e lembranças - e a linda trilha sonora só colabora nessa imersão - reparem!

"Adoráveis Mulheres" é um filme leve ao mesmo tempo em que é denso, otimista ao mesmo tempo em que é saudoso, lindo ao mesmo tempo em que é difícil de digerir! "Adoráveis Mulheres" é um grande filme, técnico e artístico, e tranquilamente merece sua audiência!

Up-date: "Adoráveis Mulheres" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Figurino!

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"Adoráveis Mulheres", novo projeto da diretora de "Lady Bird", Greta Gerwig, é uma graça! O filme é mais uma adaptação do livro homônimo de Louisa May Alcott e conta a história das irmãs March, quatro jovens americanas de personalidades completamente diferentes e que vivem em uma família cheia de valores e união. 

O processo de amadurecimento de cada uma delas, sem a presença do pai que luta na Guerra Civil, é o fio narrativo dessa história que fala sobre a essência da vida e como a felicidade pode estar nos pequenos gestos, na simplicidade do dia a dia, na ingenuidade dos sonhos adolescentes e na esperança de uma plenitude eterna - e é isso que nos toca e até nos machuca, pois sabemos que a vida não é bem assim

Transitando do passado para o presente com muita delicadeza e inteligência, Gerwig entrega um filme com alma, que mexe com a gente, mas com muito respeito (como deve ser). Uma aula de sensibilidade para falar sobre saudade, que merece ser aplaudida. Prestem atenção nesse filme - tenho certeza que ele estará no Oscar 2020, inclusive na disputa de melhor filme (ou no mínimo de melhor roteiro adaptado).

"Adoráveis Mulheres" é um destes textos clássicos várias vezes adaptados para o cinema - a mais famosa, contou com Winona Ryder, Susan Sarandon, Christian Bale e Kirsten Dusnt e foi produzida em 1994. Essa versão, dirigida pela australiana Gillian Armstrong, foi indicada para o Oscar em três categorias: melhor atriz (Winona Ryder), figurino e música. Pelo que vimos, o filme de Greta Gerwig tem tudo para se tornar a versão mais premiada da obra, começando pelas atuações marcantes de Saoirse Ronan como Jo March e mais um excelente trabalho de Laura Dern como Marmee March - lembrando que Dern deve ser indicada como coadjuvante por "Cenas de um Casamento". Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen também merecem destaque - foram interpretações honestíssimas, principalmente de Pugh! Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome) é outro que entrega um grande personagem! Tenho a impressão que Saoirse Ronan receberá sua quinta indicação e que Greta Gerwig representará as mulheres em duas categorias: melhor direção e roteiro adaptado!

A fotografia do francés Yorick Le Saux é maravilhosa e pontuada com um tons mais quentes (amarelados) no passado, transbordando alegria e com tons mais frios (azulados) no presente, o que trás uma sensação mais real, da dificuldade da vida, do amadurecimento forçado - aliás, é basicamente na troca de cor e de temperatura que entendemos essa dinâmica de "vai e vem" na linha do tempo - é muito delicado, demora algumas cenas para percebermos, mas depois flui tão naturalmente que fica fácil de acompanhar! A montagem também ajuda nessa organicidade, claro, e, para mim, mereceria uma indicação ao Oscar junto com Desenho de Produção e Figurino. Até entendo se isso não acontecer em todas as categorias, mas é importante deixar registrado que potencial para várias indicações teria! Todos esses elementos técnicos só colaboram na entrega de um filme belíssimo, bem dirigido, bem interpretado e lindo visualmente. A capacidade de Gerwig em nos transportar para a vida dessas quatro mulheres, estabelece uma relação de cumplicidade e empatia que dificilmente vemos nos filmes de hoje com tanta sensibilidade. De fato não é um filme complexo ou com reviravoltas surpreendentes, mas as mais de duas horas de história servem como convite à revisitar nosso passado, nossos laços e lembranças - e a linda trilha sonora só colabora nessa imersão - reparem!

"Adoráveis Mulheres" é um filme leve ao mesmo tempo em que é denso, otimista ao mesmo tempo em que é saudoso, lindo ao mesmo tempo em que é difícil de digerir! "Adoráveis Mulheres" é um grande filme, técnico e artístico, e tranquilamente merece sua audiência!

Up-date: "Adoráveis Mulheres" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Figurino!

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Amor e outras Drogas

“Amor e Outras Drogas” é uma ótima comédia romântica para ver, dar muitas risadas e até se emocionar! Eu diria até que o filme poderia ser, tranquilamente, um longo episódio de “Modern Love” da Prime Video - até a personagem Maggie de Hathaway, lembra o papel que a atriz interpretou na série, aquela que transitava de mulher radiante de felicidade para uma pessoa deprimida.

Aqui, Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) é um "pegador" do tipo que perde a conta do número de mulheres com quem já transou. Após ser demitido do cargo de vendedor em uma loja de eletrodomésticos por ter seduzido uma das funcionárias, ele passa a trabalhar num grande laboratório da indústria farmacêutica. Como representante comercial, sua função é abordar médicos e convencê-los a prescrever os produtos da empresa para seus pacientes. Em uma dessas visitas, ele conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma jovem de 26 anos que sofre de mal de Parkinson. Inicialmente, Jamie fica atraído pela beleza física e por ter sido dispensado por ela, mas aos poucos descobre que existe algo mais forte. Maggie, por sua vez, também sente o mesmo, mas não quer levar o caso adiante por causa de sua condição. Confira o trailer (em inglês):

Um dos pontos altos do filme, sem dúvida, é o elenco. O ator Jake Gyllenhaal está perfeito, com seu charme e desenvoltura. - é impressionante a química que ele tem em cena ao lado de Anne Hathaway, que também está ótima. O filme se passa nos anos 90, então pode esperar inúmeras cenas com os dois embalados por uma trilha sonora cheia de músicas viciantes.

A direção de Edward Zwick (“Diamante de Sangue”) é competente ao mesclar comédia, romance e drama de forma fluída e leve. A fotografia de Steven Fierberg (de "Emily em Paris") também impressiona pela sensibilidade - algo pouco comum em filmes do gênero. Fierberg transida perfeitamente entre os planos mais abertos para estabelecer a dinâmica quase caótica do relacionamento dos personagens com o close-ups das passagens mais introspectivas e sentimentais que seguem - sua lente é capaz de captar perfeitamente o sentimento que o diretor provoca em seus atores e que, inegavelmente, nos toca de uma forma impressionante.

Escrita por Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herskovitz e baseado no livro de Jamie Reidy, “Amor e Outras Drogas” tem um início cheio de momentos cômicos e muito romance, mas também vai te fazer refletir sobre alguns temas bem relevantes. E prepare-se para se comover com essa história que vai muito além de uma trama água com açúcar que possa parecer.

Vale muito a pena!

Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver

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“Amor e Outras Drogas” é uma ótima comédia romântica para ver, dar muitas risadas e até se emocionar! Eu diria até que o filme poderia ser, tranquilamente, um longo episódio de “Modern Love” da Prime Video - até a personagem Maggie de Hathaway, lembra o papel que a atriz interpretou na série, aquela que transitava de mulher radiante de felicidade para uma pessoa deprimida.

Aqui, Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) é um "pegador" do tipo que perde a conta do número de mulheres com quem já transou. Após ser demitido do cargo de vendedor em uma loja de eletrodomésticos por ter seduzido uma das funcionárias, ele passa a trabalhar num grande laboratório da indústria farmacêutica. Como representante comercial, sua função é abordar médicos e convencê-los a prescrever os produtos da empresa para seus pacientes. Em uma dessas visitas, ele conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma jovem de 26 anos que sofre de mal de Parkinson. Inicialmente, Jamie fica atraído pela beleza física e por ter sido dispensado por ela, mas aos poucos descobre que existe algo mais forte. Maggie, por sua vez, também sente o mesmo, mas não quer levar o caso adiante por causa de sua condição. Confira o trailer (em inglês):

Um dos pontos altos do filme, sem dúvida, é o elenco. O ator Jake Gyllenhaal está perfeito, com seu charme e desenvoltura. - é impressionante a química que ele tem em cena ao lado de Anne Hathaway, que também está ótima. O filme se passa nos anos 90, então pode esperar inúmeras cenas com os dois embalados por uma trilha sonora cheia de músicas viciantes.

A direção de Edward Zwick (“Diamante de Sangue”) é competente ao mesclar comédia, romance e drama de forma fluída e leve. A fotografia de Steven Fierberg (de "Emily em Paris") também impressiona pela sensibilidade - algo pouco comum em filmes do gênero. Fierberg transida perfeitamente entre os planos mais abertos para estabelecer a dinâmica quase caótica do relacionamento dos personagens com o close-ups das passagens mais introspectivas e sentimentais que seguem - sua lente é capaz de captar perfeitamente o sentimento que o diretor provoca em seus atores e que, inegavelmente, nos toca de uma forma impressionante.

Escrita por Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herskovitz e baseado no livro de Jamie Reidy, “Amor e Outras Drogas” tem um início cheio de momentos cômicos e muito romance, mas também vai te fazer refletir sobre alguns temas bem relevantes. E prepare-se para se comover com essa história que vai muito além de uma trama água com açúcar que possa parecer.

Vale muito a pena!

Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver

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Amor, Drogas e Nova York

"Amor, Drogas e Nova York" é um soco no estômago! Esse drama é tão intenso e visceral quanto "Eu, Christiane F." sem a menor dúvida - o que justifica meu aviso: só assista o filme se estiver preparado para enfrentar uma realidade quase documental de tão perturbadora! O filme dirigido pelos irmãos Safdie (Jóias Brutas) acompanha a relação doentia entre Harley (Arielle Holmes) e Ilya (Caleb Landry Jones), dois jovens "sem teto" que vivem em Nova York perambulando de um lado para o outro em busca de alguns trocados para poder comprar e consumir heroína.

Pesado? Então saiba que "Amor, Drogas e Nova York" é baseado no livro autobiográfico (Mad Love in New York Cityde Arielle Holmes - isso mesmo, a atriz que interpreta a protagonista, revive em cena os eventos mais marcantes de uma época da sua vida em que flertava com a morte a cada instante! Isso pode até explicar o trabalho sensacional de Holmes, mas, sinceramente, os irmãos Safdie dão uma aula de direção ao nos colocar ao lado dos personagens como poucas vezes vemos - vou analisar mais a fundo esse trabalho abaixo, mas adianto: é impressionante! Se você, como eu, gostou de "Euphoria" da HBO, não deixe de dar o play, mas saiba que estamos falando uma obra alguns degraus acima, não apenas na forma, mas também no conteúdo!

O roteiro de "Amor, Drogas e Nova York" trás a dor de uma personagem perdida, dependente e, principalmente, solitária. Embora a relação com a heroína seja o ponto mais marcante ou até impactante para quem assiste, o filme tem um mood de solidão que incomoda na alma. Ter Nova York como cenário só potencializa essa sensação e a forma como algumas situações são enquadradas trazem um realismo absurdo - não raro, os personagens discutem, gritam, se agridem no meio da rua, completamente alterados pela droga, e as pessoas ao redor se relacionam com aquela cena de uma forma muito natural (ou pelo menos tentando ser muito natural). Reparem! O sofrimento dos personagens (de todos) é outro ponto crucial no filme: ele está estampado em olhos completamente perdidos e os diretores fazem questão de amplificar essa percepção com lentes bem fechadas, 85mm, em closes belíssimos, mas muito cruéis! A câmera mais solta, ajuda na sensação de desordem, de caos, e a fotografia do americano Sean Price Williams, vencedor no Tribeca Film Festival de 2016 com "Contemporary Color", tem o mérito dessa organicidade. 

Ver a forma como Harley está inserida no meio do tráfico, em um universo de mendicância, de pequenos furtos, de pouco dinheiro e de nomadismo, impressiona até aquele que parece estar mais preparado - chega a ser cruel (e vemos isso todos os dias e nem nos damos conta no que está por trás daquela condição). Nesse cenário desolador ainda tem o "amor" entre os protagonistas, pautado no abuso psicológico e fisico, e isso, meu amigo, é só a ponta do iceberg para completar a escolha de não romantizar aquela situação e muito menos as escolhas absurdas que eles próprios fazem, em todo momento! O mérito de tanto impacto visual imposto pelos irmãos Safdie só tem sentido pelo sensacional trabalho do elenco e aí eu tenho que reforçar: todos os atores, sejam eles os mais desconhecidos, estão impecáveis. Além de Arielle Holmes e Caleb Landry Jones, eu ainda destaco, Buddy Duress (Mike) e Necro (Skully).

"Amor, Drogas e Nova York" venceu o prêmio da crítica no Festival de Veneza em 2014 e, mesmo cruel, teve o mérito de trazer um assunto delicado, mas sem maquiagem, que choca ao mesmo tempo em que emociona. Como se não existisse a necessidade de explicar a razão pela qual tudo aquilo está acontecendo, a verdade é que aquilo é a verdade e por isso incomoda tanto. É um belíssimo filme, embora não seja para todos, eu diria que é imperdível se você gostar de uma pegada mais independente, com um nível técnico e artístico acima da média!

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"Amor, Drogas e Nova York" é um soco no estômago! Esse drama é tão intenso e visceral quanto "Eu, Christiane F." sem a menor dúvida - o que justifica meu aviso: só assista o filme se estiver preparado para enfrentar uma realidade quase documental de tão perturbadora! O filme dirigido pelos irmãos Safdie (Jóias Brutas) acompanha a relação doentia entre Harley (Arielle Holmes) e Ilya (Caleb Landry Jones), dois jovens "sem teto" que vivem em Nova York perambulando de um lado para o outro em busca de alguns trocados para poder comprar e consumir heroína.

Pesado? Então saiba que "Amor, Drogas e Nova York" é baseado no livro autobiográfico (Mad Love in New York Cityde Arielle Holmes - isso mesmo, a atriz que interpreta a protagonista, revive em cena os eventos mais marcantes de uma época da sua vida em que flertava com a morte a cada instante! Isso pode até explicar o trabalho sensacional de Holmes, mas, sinceramente, os irmãos Safdie dão uma aula de direção ao nos colocar ao lado dos personagens como poucas vezes vemos - vou analisar mais a fundo esse trabalho abaixo, mas adianto: é impressionante! Se você, como eu, gostou de "Euphoria" da HBO, não deixe de dar o play, mas saiba que estamos falando uma obra alguns degraus acima, não apenas na forma, mas também no conteúdo!

O roteiro de "Amor, Drogas e Nova York" trás a dor de uma personagem perdida, dependente e, principalmente, solitária. Embora a relação com a heroína seja o ponto mais marcante ou até impactante para quem assiste, o filme tem um mood de solidão que incomoda na alma. Ter Nova York como cenário só potencializa essa sensação e a forma como algumas situações são enquadradas trazem um realismo absurdo - não raro, os personagens discutem, gritam, se agridem no meio da rua, completamente alterados pela droga, e as pessoas ao redor se relacionam com aquela cena de uma forma muito natural (ou pelo menos tentando ser muito natural). Reparem! O sofrimento dos personagens (de todos) é outro ponto crucial no filme: ele está estampado em olhos completamente perdidos e os diretores fazem questão de amplificar essa percepção com lentes bem fechadas, 85mm, em closes belíssimos, mas muito cruéis! A câmera mais solta, ajuda na sensação de desordem, de caos, e a fotografia do americano Sean Price Williams, vencedor no Tribeca Film Festival de 2016 com "Contemporary Color", tem o mérito dessa organicidade. 

Ver a forma como Harley está inserida no meio do tráfico, em um universo de mendicância, de pequenos furtos, de pouco dinheiro e de nomadismo, impressiona até aquele que parece estar mais preparado - chega a ser cruel (e vemos isso todos os dias e nem nos damos conta no que está por trás daquela condição). Nesse cenário desolador ainda tem o "amor" entre os protagonistas, pautado no abuso psicológico e fisico, e isso, meu amigo, é só a ponta do iceberg para completar a escolha de não romantizar aquela situação e muito menos as escolhas absurdas que eles próprios fazem, em todo momento! O mérito de tanto impacto visual imposto pelos irmãos Safdie só tem sentido pelo sensacional trabalho do elenco e aí eu tenho que reforçar: todos os atores, sejam eles os mais desconhecidos, estão impecáveis. Além de Arielle Holmes e Caleb Landry Jones, eu ainda destaco, Buddy Duress (Mike) e Necro (Skully).

"Amor, Drogas e Nova York" venceu o prêmio da crítica no Festival de Veneza em 2014 e, mesmo cruel, teve o mérito de trazer um assunto delicado, mas sem maquiagem, que choca ao mesmo tempo em que emociona. Como se não existisse a necessidade de explicar a razão pela qual tudo aquilo está acontecendo, a verdade é que aquilo é a verdade e por isso incomoda tanto. É um belíssimo filme, embora não seja para todos, eu diria que é imperdível se você gostar de uma pegada mais independente, com um nível técnico e artístico acima da média!

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