Viu Review - ml-violencia

O Último Duelo

"O Último Duelo" não é um filme de ação, de disputas politicas ou religiosas, de traição ou violência - embora tenha tudo isso. "O Último Duelo" é um drama (profundo) sobre a verdade, mesmo que essa venha mascarada por um contexto de época onde a misoginia e o patriarcado significavam honra e virilidade. O roteiro escrito por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, é baseado em um livro sobre o último duelo judicial oficialmente reconhecido na França, mas que chega acompanhado por um subtexto atual e importante que ganha muita potência na mão (e na cabeça) criativa de Ridley Scott que resolveu contar a mesma história a partir de três diferentes perspectivas. 

No filme acompanhamos a história real de uma mulher francesa do século XIV, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), que desafiou os costumes medievais ao denunciar e levar a julgamento o homem que a violentou, Jacque Le Cris (Adam Driver), ex-companheiro de batalhas e desafeto de seu marido, Jean de Carrouges (Matt Damon). Confira o trailer:

Embora "O Último Duelo" tenha sido muito criticado por se preocupar mais em estabelecer a rivalidade entre Le Cris e Jean de Carrouges, do que pela luta por justiça de Marguerite em uma época em que a Igreja ditava as regras e um Rei simplesmente as aplicava de acordo com sua vontade, eu gostei e, sinceramente, não tive essa leitura - muito pelo contrário, o valor das circunstâncias que levaram ao duelo, para mim, são muito mais potentes do que as disputas carregadas de vaidade entre os personagens, porém Scott usa desse gatilho para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que cria pontos de reflexão sobre o ato sofrido por Marguerite.

Partindo do conceito de que uma história possui três versões, "O Último Duelo" se aproveita de uma montagem competente da Claire Simpson (vencedora do Oscar pelo inesquecível "Platoon") para criar uma dinâmica narrativa muito interessante e provocadora - reparem como vamos mudando nossa "interpretação da verdade" a cada perspectiva. Pois bem, alinhado a isso, Scott vai entregando pequenos detalhes que vão diferenciando cada uma das versões - são pequenas nuances, diálogos em ordens diferentes e até olhares significantes que vão remodelando a narrativa. É muito bacana!

Alternando cenas de batalhas (sangrentas) bem construídas, que nos lembram os bons tempos de Scott comandando "Gladiador" (2000), com momentos bastante intimistas mesmo envolto a crueldade daquele universo, "O Último Duelo" deve agradar uma audiência mais sensível aos assuntos que exigem um olhar menos superficial e também aqueles que buscam, simplesmente, entretenimento de qualidade. Tecnicamente muito seguro como sempre, Scott sabe o seu valor, marcando essa condução tão polarizada com planos perfeitos e movimentos de câmera belíssimos, sem falar, é claro, da marcante fotografia cinzenta e sombria (ao melhor estilo Game of Thrones) de Dariusz Wolski (de "Relatos do Mundo").

Olha, vale muito o seu play!

Assista Agora

"O Último Duelo" não é um filme de ação, de disputas politicas ou religiosas, de traição ou violência - embora tenha tudo isso. "O Último Duelo" é um drama (profundo) sobre a verdade, mesmo que essa venha mascarada por um contexto de época onde a misoginia e o patriarcado significavam honra e virilidade. O roteiro escrito por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, é baseado em um livro sobre o último duelo judicial oficialmente reconhecido na França, mas que chega acompanhado por um subtexto atual e importante que ganha muita potência na mão (e na cabeça) criativa de Ridley Scott que resolveu contar a mesma história a partir de três diferentes perspectivas. 

No filme acompanhamos a história real de uma mulher francesa do século XIV, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), que desafiou os costumes medievais ao denunciar e levar a julgamento o homem que a violentou, Jacque Le Cris (Adam Driver), ex-companheiro de batalhas e desafeto de seu marido, Jean de Carrouges (Matt Damon). Confira o trailer:

Embora "O Último Duelo" tenha sido muito criticado por se preocupar mais em estabelecer a rivalidade entre Le Cris e Jean de Carrouges, do que pela luta por justiça de Marguerite em uma época em que a Igreja ditava as regras e um Rei simplesmente as aplicava de acordo com sua vontade, eu gostei e, sinceramente, não tive essa leitura - muito pelo contrário, o valor das circunstâncias que levaram ao duelo, para mim, são muito mais potentes do que as disputas carregadas de vaidade entre os personagens, porém Scott usa desse gatilho para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que cria pontos de reflexão sobre o ato sofrido por Marguerite.

Partindo do conceito de que uma história possui três versões, "O Último Duelo" se aproveita de uma montagem competente da Claire Simpson (vencedora do Oscar pelo inesquecível "Platoon") para criar uma dinâmica narrativa muito interessante e provocadora - reparem como vamos mudando nossa "interpretação da verdade" a cada perspectiva. Pois bem, alinhado a isso, Scott vai entregando pequenos detalhes que vão diferenciando cada uma das versões - são pequenas nuances, diálogos em ordens diferentes e até olhares significantes que vão remodelando a narrativa. É muito bacana!

Alternando cenas de batalhas (sangrentas) bem construídas, que nos lembram os bons tempos de Scott comandando "Gladiador" (2000), com momentos bastante intimistas mesmo envolto a crueldade daquele universo, "O Último Duelo" deve agradar uma audiência mais sensível aos assuntos que exigem um olhar menos superficial e também aqueles que buscam, simplesmente, entretenimento de qualidade. Tecnicamente muito seguro como sempre, Scott sabe o seu valor, marcando essa condução tão polarizada com planos perfeitos e movimentos de câmera belíssimos, sem falar, é claro, da marcante fotografia cinzenta e sombria (ao melhor estilo Game of Thrones) de Dariusz Wolski (de "Relatos do Mundo").

Olha, vale muito o seu play!

Assista Agora

13 de Novembro: Terror em Paris

Por mais dolorido que possa parecer, a série documental da Netflix é um retrato da capacidade humana de se reinventar, seja nos momentos mais extremos, seja pela forma como ela reage ao evento que transformou sua vida!

São 3 episódios de quase 1 hora, mostrando minuto a minuto, tudo o que aconteceu naquela noite em Paris quando as primeiras explosões chamaram a atenção de todos que acompanhavam o amistoso França e Alemanha no Stade de France em Saint-Denis. As 80 mil pessoas que ali estavam, não tinham a menor noção do se transformaria aquela noite quando, poucos minutos depois, restaurantes e bares começaram a ser atacados por terroristas, culminando no massacre da boate Bataclan.

Pelo olhar e a lembrança de quem estava lá, em cada um desses lugares, ou pelos depoimentos de quem socorreu as vítimas naquela noite, e até pelas constatações dos políticos e policiais que precisaram tomar decisões difíceis durante os ataques, "13 de Novembro: Terror em Paris", talvez seja o documentário mais humano sobre um ataque terrorista que eu já assisti. É impressionante, marcante, mas, principalmente, necessário, pois só assim vamos entender o quanto a humanidade está machucada, mas ainda luta para continuar caminhando com a cabeça erguida!

A série mistura depoimentos com imagens de arquivos, vídeos feitos por celulares e até gravações da própria polícia, para ilustrar, em detalhes, o inferno de quem viveu e sobreviveu aos atentados. Muito interessante é a dinâmica que os diretores Gédéon Naudet e Jules Naudet, que já ganharam um Emmy pelo também excelente "9/11" de 2002, usaram para contar cada uma das histórias do ataque. Em nenhum momento sentimos um viés político, muito pelo contrário - nem o Estado Islâmico é citado durante os episódios. O foco é realmente o lado humano dos atentados e é aí que o drama pega forte. Fica fácil de visualizar aqueles momentos tão particulares que são contados pelos sobreviventes e isso dói. Os relatos são impressionantes, sinceros, sem nenhum tipo de máscara ou receio. É forte!!!!

Um dos artifícios usados pelos irmãos Naudet foi a inserção de elementos gráficos que serviram para pontuar o trajeto que os terroristas fizeram até chegar na Bataclan. Enquanto o primeiro episódio da série se dedica aos ataques nos restaurantes e bares, o segundo e o terceiro mergulham no interior da boate - o bacana é que, mesmo complexos, os fatos são facilmente explicados e localizados por uma  animação que ilustra perfeitamente onde estavam os personagens, os terroristas e, finalmente, os policiais. Fica tudo muito simples, fluido, o que, sem dúvida, nos coloca dentro da história sem a menor piedade. É belo como obra, como técnica de storytelling, mas difícil de digerir como ser humano!

"13 de Novembro: Terror em Paris" é uma bela surpresa escondida dentro do catálogo da Netflix. É preciso estar disposto para encarar uma história como essa, mas a experiência é extremamente imersiva e provocadora. É impossível não se colocar no lugar daquelas pessoas quando relatam o silêncio após os disparos, o cheiro de sangue misturado com pólvora, os clarões das explosões e até o barulho ensurdecedor dos celulares das vítimas tocando depois do massacre.  Embora esse seja o melhor elogio que um documentário pode receber, estar ali dentro, mesmo que pelos olhos dos outros, não é uma tarefa fácil!!!

Eu indico tranquilamente, mas assista sabendo que o assunto vai machucar e que o resultado da obra é um relato emocionante, cheio de detalhes, de uma noite que nunca mais será esquecida!!!!

Assista Agora 

Por mais dolorido que possa parecer, a série documental da Netflix é um retrato da capacidade humana de se reinventar, seja nos momentos mais extremos, seja pela forma como ela reage ao evento que transformou sua vida!

São 3 episódios de quase 1 hora, mostrando minuto a minuto, tudo o que aconteceu naquela noite em Paris quando as primeiras explosões chamaram a atenção de todos que acompanhavam o amistoso França e Alemanha no Stade de France em Saint-Denis. As 80 mil pessoas que ali estavam, não tinham a menor noção do se transformaria aquela noite quando, poucos minutos depois, restaurantes e bares começaram a ser atacados por terroristas, culminando no massacre da boate Bataclan.

Pelo olhar e a lembrança de quem estava lá, em cada um desses lugares, ou pelos depoimentos de quem socorreu as vítimas naquela noite, e até pelas constatações dos políticos e policiais que precisaram tomar decisões difíceis durante os ataques, "13 de Novembro: Terror em Paris", talvez seja o documentário mais humano sobre um ataque terrorista que eu já assisti. É impressionante, marcante, mas, principalmente, necessário, pois só assim vamos entender o quanto a humanidade está machucada, mas ainda luta para continuar caminhando com a cabeça erguida!

A série mistura depoimentos com imagens de arquivos, vídeos feitos por celulares e até gravações da própria polícia, para ilustrar, em detalhes, o inferno de quem viveu e sobreviveu aos atentados. Muito interessante é a dinâmica que os diretores Gédéon Naudet e Jules Naudet, que já ganharam um Emmy pelo também excelente "9/11" de 2002, usaram para contar cada uma das histórias do ataque. Em nenhum momento sentimos um viés político, muito pelo contrário - nem o Estado Islâmico é citado durante os episódios. O foco é realmente o lado humano dos atentados e é aí que o drama pega forte. Fica fácil de visualizar aqueles momentos tão particulares que são contados pelos sobreviventes e isso dói. Os relatos são impressionantes, sinceros, sem nenhum tipo de máscara ou receio. É forte!!!!

Um dos artifícios usados pelos irmãos Naudet foi a inserção de elementos gráficos que serviram para pontuar o trajeto que os terroristas fizeram até chegar na Bataclan. Enquanto o primeiro episódio da série se dedica aos ataques nos restaurantes e bares, o segundo e o terceiro mergulham no interior da boate - o bacana é que, mesmo complexos, os fatos são facilmente explicados e localizados por uma  animação que ilustra perfeitamente onde estavam os personagens, os terroristas e, finalmente, os policiais. Fica tudo muito simples, fluido, o que, sem dúvida, nos coloca dentro da história sem a menor piedade. É belo como obra, como técnica de storytelling, mas difícil de digerir como ser humano!

"13 de Novembro: Terror em Paris" é uma bela surpresa escondida dentro do catálogo da Netflix. É preciso estar disposto para encarar uma história como essa, mas a experiência é extremamente imersiva e provocadora. É impossível não se colocar no lugar daquelas pessoas quando relatam o silêncio após os disparos, o cheiro de sangue misturado com pólvora, os clarões das explosões e até o barulho ensurdecedor dos celulares das vítimas tocando depois do massacre.  Embora esse seja o melhor elogio que um documentário pode receber, estar ali dentro, mesmo que pelos olhos dos outros, não é uma tarefa fácil!!!

Eu indico tranquilamente, mas assista sabendo que o assunto vai machucar e que o resultado da obra é um relato emocionante, cheio de detalhes, de uma noite que nunca mais será esquecida!!!!

Assista Agora 

A Casa que Jack Construiu

Lars Von Trier (de "Melancolia") nos presenteia com algo insano e incandescente. Uma aula de como desenvolver personagens complexos, metáforas imponentes e um roteiro genial!

Um dia, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack (Matt Dillon) mata uma mulher. Este evento provoca um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar dezenas de pessoas ao longo de doze anos. Devido ao descaso das autoridades e a indiferença dos habitantes locais, o criminoso não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executa-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio (Bruno Ganz) em uma jornada rumo ao inferno. Confira o trailer:

Indubitavelmente Lars Von Trier nos choca! Uma mente doentia? Um gênio incompreendido? Talvez seja a mistura dos dois, porém, não podemos ter a audácia de mencionar que ele não engrandece o cinema em geral - esqueça seus escândalos pessoais, estou focando no artista, e com esse foco, ele figura na prateleira de cima dos diretores deste século. Sempre será um desperdício encararmos qualquer filme de Von Trier com uma mente fechada, objetiva e crua. O alcance mensurado por suas hipérboles sistemáticas conceituais sobre religião, credo e cor nos inflamam e nos causam estranheza e repúdio, no entanto, se olharmos com olhos de libertação ou até, uma libertinagem utópica, talvez a compreensão de seus filmes passam a ser mais “mastigáveis” para o grande público.

O modo com que Lars molda essa narrativa é grosseiramente genial. O clímax imposto em cada passagem de incidentes, é fluida e intrigante. A maneira como é diluída o tesão no âmago do protagonista psicopata que usa e abusa de diálogos efervescentes e metáforas distópicas, com o único e belo intuito de colecionar corpos, é instigante e soberbo. A violência gráfica é essencial, observamos que o diretor não quer nos chocar, e sim passar a mensagem de que o mundo caminha para o limbo social - o nocivo está presente em cada canto, no entanto, sua perceptividade em demonstrar as fraquezas do protagonista, aproximando ele da audiência, nos causa medo, e esse receio não é deferido pelas atrocidades mostradas, e sim por não sabermos quem é quem no mundo de hoje, não há nada mais aterrorizante do que não saber em quem confiar, a maldade pode estar ao seu lado.

Mas o mal tem cura? O desejo de esfolar, decapitar, estrangular é subversivo? Nascemos com isso ou vamos lapidando esse ódio continuo sobre o próximo com o passar do tempo? Lars Von Trier usa a arte como ponto de ebulição. O mal é derivado desse ostracismo artístico. O diretor nos presenteia com um filme asqueroso, impactante, lindo e reflexivo. Afinal, o inferno é alcançado após a morte ou já estamos nele? Assistam, é uma viagem existencial, quase espectral, até a podridão humana!

Um serial Killer com traços normais. Você conseguiria reconhecer um assassino em série? Eu aposto que não! "A Casa que Jack Construiu" é uma obra-prima!

Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee

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Lars Von Trier (de "Melancolia") nos presenteia com algo insano e incandescente. Uma aula de como desenvolver personagens complexos, metáforas imponentes e um roteiro genial!

Um dia, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack (Matt Dillon) mata uma mulher. Este evento provoca um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar dezenas de pessoas ao longo de doze anos. Devido ao descaso das autoridades e a indiferença dos habitantes locais, o criminoso não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executa-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio (Bruno Ganz) em uma jornada rumo ao inferno. Confira o trailer:

Indubitavelmente Lars Von Trier nos choca! Uma mente doentia? Um gênio incompreendido? Talvez seja a mistura dos dois, porém, não podemos ter a audácia de mencionar que ele não engrandece o cinema em geral - esqueça seus escândalos pessoais, estou focando no artista, e com esse foco, ele figura na prateleira de cima dos diretores deste século. Sempre será um desperdício encararmos qualquer filme de Von Trier com uma mente fechada, objetiva e crua. O alcance mensurado por suas hipérboles sistemáticas conceituais sobre religião, credo e cor nos inflamam e nos causam estranheza e repúdio, no entanto, se olharmos com olhos de libertação ou até, uma libertinagem utópica, talvez a compreensão de seus filmes passam a ser mais “mastigáveis” para o grande público.

O modo com que Lars molda essa narrativa é grosseiramente genial. O clímax imposto em cada passagem de incidentes, é fluida e intrigante. A maneira como é diluída o tesão no âmago do protagonista psicopata que usa e abusa de diálogos efervescentes e metáforas distópicas, com o único e belo intuito de colecionar corpos, é instigante e soberbo. A violência gráfica é essencial, observamos que o diretor não quer nos chocar, e sim passar a mensagem de que o mundo caminha para o limbo social - o nocivo está presente em cada canto, no entanto, sua perceptividade em demonstrar as fraquezas do protagonista, aproximando ele da audiência, nos causa medo, e esse receio não é deferido pelas atrocidades mostradas, e sim por não sabermos quem é quem no mundo de hoje, não há nada mais aterrorizante do que não saber em quem confiar, a maldade pode estar ao seu lado.

Mas o mal tem cura? O desejo de esfolar, decapitar, estrangular é subversivo? Nascemos com isso ou vamos lapidando esse ódio continuo sobre o próximo com o passar do tempo? Lars Von Trier usa a arte como ponto de ebulição. O mal é derivado desse ostracismo artístico. O diretor nos presenteia com um filme asqueroso, impactante, lindo e reflexivo. Afinal, o inferno é alcançado após a morte ou já estamos nele? Assistam, é uma viagem existencial, quase espectral, até a podridão humana!

Um serial Killer com traços normais. Você conseguiria reconhecer um assassino em série? Eu aposto que não! "A Casa que Jack Construiu" é uma obra-prima!

Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee

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A Tragédia de Macbeth

"A Tragédia de Macbeth" é um filmaço, mas não assista com sono!

Brincadeiras à parte, é preciso que se diga que essa produção original para a AppleTV+, com Denzel Washington eFrances McDormand, usa de uma linguagem cinematográfica extremamente poética para adaptar a obra de William Shakespeare, respeitando prioritariamente o seu texto - e quando pontuo esse elemento narrativo tão importante, coloco o roteiro, do também diretor Joel Coen, em um outro patamar, mesmo com uma linguagem clássica de difícil entendimento, mas que está completamente alinhada com uma fotografia deslumbrante do diretor Bruno Delbonnel (cinco vezes indicado ao Oscar, sendo a última por "A Hora mais Escura"), performances no limiar entre a impostação teatral (de corpo e voz) e a profundidade emocional do cinema, e ainda uma construção cênica incrivelmente criativa e dinâmica.

O filme conta a história de Macbeth (Denzel Washington), homem poderoso que é convencido por um trio de bruxas que se tornará o rei da Escócia. Essa visão porém, o toma pela ganância do poder. Rapidamente, o protagonista fica obcecado em fazer com que a profecia se torne realidade, mesmo que para isso ele tenha que eliminar todos aqueles se coloquem entre ele e o trono do seu país. Confira o trailer:

Veja, é bem possível que poucos se encantem com "A Tragédia de Macbeth". De fato o filme é difícil e, embora fabuloso visualmente, as escolhas estéticas e narrativas de Coen e Delbonnel tendem a afastar o, digamos, grande público - dadas as devidas diferenças, inclusive de gênero, se você não gostou de "O Farol", você não vai gostar de "A Tragédia de Macbeth". Ambos os filmes têm diálogos rebuscados, profundos e que aqui ainda carregam o peso do "inglês clássico shakesperiano". Cada linha dita pelos atores estão repletas de metáforas e referências de época, característica do texto do dramaturgo inglês, e brilhantemente preservado por Cohen. Ao dar o play, a tela da TV praticamente se transforma em uma janela para um palco teatral, em preto e branco e com um aspecto 4:3 (aquele quadrado de antigamente). Os ambientes onde as cenas acontecem vão se transformando durante as transições, como um jogo de luz (do teatro) e de imagem (do cinema) e praticamente não temos objetos de cena, mesmo em ambientes tão amplos e imponentes - o que acaba criando uma sensação de vazio avassalador, reparem.

Toda essa ambientação é só parte do contexto para uma história potente e muito bem adaptada. A sensação da existência de um “palco” é tão clara quanto importante para que o filme Coen se torne único - todas as filmagens foram feitas em estúdio, com cenários especialmente construídos para a produção, o que imediatamente nos remete a sensação de artificialidade e, acreditem, de claustrofobia e ansiedade. As soluções criativas do roteiro, como o mergulho nas mentes perturbadas do casal Macbeth e a relação dos personagens com as bruxas, dão exatamente o tom obscuro da obra - é como se víssemos um "Game of Thrones" mais adulto, depressivo, visceral!

"A Tragédia de Macbeth" é um filme impositivo, potente, poético ao extremo, verdadeiramente lindo e bem realizado. Tecnicamente perfeito! Artisticamente irretocável e muito criativo - mas não vai ganhar o Oscar de melhor do ano por ser um clássico, quase inacessível, de William Shakespeare. Uma pena! Embora inicialmente você perceba essa certa estranheza pelo texto rebuscado, logo a trama de traição vai ganhando corpo e nossa percepção vai se acostumando com todo aquele movimento estético. Por isso eu digo sem medo de errar: se você estiver disposto a enfrentar um texto pesado, sua experiência visual será inesquecível!

Vale muito a pena!

Assista Agora

"A Tragédia de Macbeth" é um filmaço, mas não assista com sono!

Brincadeiras à parte, é preciso que se diga que essa produção original para a AppleTV+, com Denzel Washington eFrances McDormand, usa de uma linguagem cinematográfica extremamente poética para adaptar a obra de William Shakespeare, respeitando prioritariamente o seu texto - e quando pontuo esse elemento narrativo tão importante, coloco o roteiro, do também diretor Joel Coen, em um outro patamar, mesmo com uma linguagem clássica de difícil entendimento, mas que está completamente alinhada com uma fotografia deslumbrante do diretor Bruno Delbonnel (cinco vezes indicado ao Oscar, sendo a última por "A Hora mais Escura"), performances no limiar entre a impostação teatral (de corpo e voz) e a profundidade emocional do cinema, e ainda uma construção cênica incrivelmente criativa e dinâmica.

O filme conta a história de Macbeth (Denzel Washington), homem poderoso que é convencido por um trio de bruxas que se tornará o rei da Escócia. Essa visão porém, o toma pela ganância do poder. Rapidamente, o protagonista fica obcecado em fazer com que a profecia se torne realidade, mesmo que para isso ele tenha que eliminar todos aqueles se coloquem entre ele e o trono do seu país. Confira o trailer:

Veja, é bem possível que poucos se encantem com "A Tragédia de Macbeth". De fato o filme é difícil e, embora fabuloso visualmente, as escolhas estéticas e narrativas de Coen e Delbonnel tendem a afastar o, digamos, grande público - dadas as devidas diferenças, inclusive de gênero, se você não gostou de "O Farol", você não vai gostar de "A Tragédia de Macbeth". Ambos os filmes têm diálogos rebuscados, profundos e que aqui ainda carregam o peso do "inglês clássico shakesperiano". Cada linha dita pelos atores estão repletas de metáforas e referências de época, característica do texto do dramaturgo inglês, e brilhantemente preservado por Cohen. Ao dar o play, a tela da TV praticamente se transforma em uma janela para um palco teatral, em preto e branco e com um aspecto 4:3 (aquele quadrado de antigamente). Os ambientes onde as cenas acontecem vão se transformando durante as transições, como um jogo de luz (do teatro) e de imagem (do cinema) e praticamente não temos objetos de cena, mesmo em ambientes tão amplos e imponentes - o que acaba criando uma sensação de vazio avassalador, reparem.

Toda essa ambientação é só parte do contexto para uma história potente e muito bem adaptada. A sensação da existência de um “palco” é tão clara quanto importante para que o filme Coen se torne único - todas as filmagens foram feitas em estúdio, com cenários especialmente construídos para a produção, o que imediatamente nos remete a sensação de artificialidade e, acreditem, de claustrofobia e ansiedade. As soluções criativas do roteiro, como o mergulho nas mentes perturbadas do casal Macbeth e a relação dos personagens com as bruxas, dão exatamente o tom obscuro da obra - é como se víssemos um "Game of Thrones" mais adulto, depressivo, visceral!

"A Tragédia de Macbeth" é um filme impositivo, potente, poético ao extremo, verdadeiramente lindo e bem realizado. Tecnicamente perfeito! Artisticamente irretocável e muito criativo - mas não vai ganhar o Oscar de melhor do ano por ser um clássico, quase inacessível, de William Shakespeare. Uma pena! Embora inicialmente você perceba essa certa estranheza pelo texto rebuscado, logo a trama de traição vai ganhando corpo e nossa percepção vai se acostumando com todo aquele movimento estético. Por isso eu digo sem medo de errar: se você estiver disposto a enfrentar um texto pesado, sua experiência visual será inesquecível!

Vale muito a pena!

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Ataque dos Cães

Ataque dos Cães

"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora  (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!

O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:

"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.

Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").

Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também). 

"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.

Vale muito a pena!

Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção! 

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"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora  (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!

O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:

"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.

Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").

Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também). 

"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.

Vale muito a pena!

Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção! 

Assista Agora

Aves de Rapina

"Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" não é o tipo de filme de herói que me agrada, mas é preciso reconhecer que existe um público enorme que até prefere essemood mais suave e descompromissado do que algo mais denso com as discussões filosóficas que o Zack Snyder estava propondo para o DCU. Quando analisei"Coringa" escrevi o seguinte comentário: "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA". 

Pois bem, o sucesso de "Coringa" é indiscutível, com o público e com a crítica, e mesmo assim a DC ainda volta no tempo e ainda luta para se afirmar como selo! "Aves de Rapina", por exemplo, fica em cima do muro: tem muito do que eu acreditava que a DC deveria deixar de lado para fortalecer sua identidade, mas também foi muito elogiada pela forma como a história foi contada, mesmo com um roteiro infantilizado (infelizmente) - embora o filme tenha muita ação e não esconde a violência, o universo de "Aves de Rapina" é muito mais próximo de "Esquadrão Suicida" - que sempre foi tido como um fracasso que deveria ser esquecido - do que aquele de "Coringa", trazendo um look menos sombrio e com personagens coadjuvantes muito mais engraçadinhos do que bem desenvolvidos - ou seja, a DC assume a violência, mas não pesa na mão quando o assunto é se aprofundar na história e nas motivações dos personagens. A mensagem que fica é essa: "só assista o filme e se divirta!" - e eu complemento: "por sua conta e risco, claro!"

O filme passa rapidamente pela história de Harleen Quinzel, desde criança, até conhecer o Sr. C (aquele "Coringa Rapper" do Jared Leto e não aquele Coringa genial do Joaquin Phoenix) - as inserções gráficas já nos posicionam sobre o tom do filme, inclusive. Assim que restabelece a personagem Arlequina com uma premissa pseudo-dramática sobre o término do seu relacionamento com o Coringa, começa uma corrida (desesperada) para construir algumas situações que possam justificar a criação do grupo que dá nome ao filme: "Aves de Rapina"; e mesmo o roteiro sendo inteligente na apresentação de cada uma das personagens: Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), quebrando muitas vezes a linearidade do tempo, as motivações de cada uma delas, são tão superficiais e batidas que refletem até em um personagem que tinha tudo para ser assustador ao melhor estilo Hannibal Lecter, o Máscara Negra (Ewan McGregor), mas que acaba soando como um garoto mimado que se irrita quando ele acha que alguém "está rindo da cara dele" (sim, existe essa cena no filme)!

Como é possível observar no trailer, e talvez por isso criou-se uma expectativa enorme sobre o seu lançamento, a novata diretora Cathy Yan assume a violência nua e crua em cenas de lutas extremamente bem coreografadas ao melhor estilo Demolidor (Netflix) na tentativa explícita de empoderar suas personagens femininas - e ela consegue cumprir sua missão com louvor. O balé da ação por trás das habilidades circenses de Arlequina pode não ter a mesma tensão e potência como em "Esquadrão Suicida", mas continua com aquele enorme carisma graças ao excelente trabalho da Margot Robbie - ela funciona tanto nas cenas mais dramáticas, quando nas escrachadas. A precisão cirúrgica da Caçadora e a habilidade natural de Renee Montoya estão muito bem justificadas e completamente dentro do contexto do filme, apenas o poder da Canário Negro que cai de para-quedas e ninguém nunca mais toca no assunto - é quase como se sua habilidade fosse a luta de rua e não a força de sua voz!

A partir daqui peço licença para refletir sobre as escolhas da DC, sem clubismo: "Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" tem o seu mérito como subproduto da DC, mas o que me incomodou novamente, e isso não deve influenciar no gosto pessoal de ninguém, foi a falta de planejamento da DC, já que ela está tentando reconstruir seu Universo depois de algumas bobagens. Se houve um acerto tão claro e reconhecido como "Coringa" e mesmo que a proposta dos produtos sejam completamente diferentes (e são!), não se pode esquecer dos pontos de convergência entre as histórias, afinal ambas se passam em Gotham, por exemplo: então por que é tudo tão diferente? Os anos passaram entre uma história e outra, claro, mas houve algum reflexo na cidade, nos personagens? Nada é falado... Tudo fica  ainda mais confuso quando os executivos vem à público dizer que o filme é independente - mas meu amigo, existem várias referências ao desastroso "Esquadrão Suicida" e nenhuma sobre o novo Universo DC... cadê a coerência?

"Aves de Rapina" pode ser um acerto para quem entende que existe uma dinâmica diferente entre as obras e um distanciamento natural entre as histórias, que a liberdade artística pode influenciar no resultado individual, mas nunca como um todo e que a forma como está sendo pensado e criado o novo DCU é só para um ou outro selo da marca, com os personagens principais e tal... Não sei, para mim não convenceu, mas, como reforço, essa é só a minha opinião!

Se você gosta de filmes de ação, cheio de piadas e com alguma referência aos quadrinhos, é possível que você se divirta com "Aves de Rapina", se você espera um filmaço como "Coringa" nem perca seu tempo!

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"Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" não é o tipo de filme de herói que me agrada, mas é preciso reconhecer que existe um público enorme que até prefere essemood mais suave e descompromissado do que algo mais denso com as discussões filosóficas que o Zack Snyder estava propondo para o DCU. Quando analisei"Coringa" escrevi o seguinte comentário: "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA". 

Pois bem, o sucesso de "Coringa" é indiscutível, com o público e com a crítica, e mesmo assim a DC ainda volta no tempo e ainda luta para se afirmar como selo! "Aves de Rapina", por exemplo, fica em cima do muro: tem muito do que eu acreditava que a DC deveria deixar de lado para fortalecer sua identidade, mas também foi muito elogiada pela forma como a história foi contada, mesmo com um roteiro infantilizado (infelizmente) - embora o filme tenha muita ação e não esconde a violência, o universo de "Aves de Rapina" é muito mais próximo de "Esquadrão Suicida" - que sempre foi tido como um fracasso que deveria ser esquecido - do que aquele de "Coringa", trazendo um look menos sombrio e com personagens coadjuvantes muito mais engraçadinhos do que bem desenvolvidos - ou seja, a DC assume a violência, mas não pesa na mão quando o assunto é se aprofundar na história e nas motivações dos personagens. A mensagem que fica é essa: "só assista o filme e se divirta!" - e eu complemento: "por sua conta e risco, claro!"

O filme passa rapidamente pela história de Harleen Quinzel, desde criança, até conhecer o Sr. C (aquele "Coringa Rapper" do Jared Leto e não aquele Coringa genial do Joaquin Phoenix) - as inserções gráficas já nos posicionam sobre o tom do filme, inclusive. Assim que restabelece a personagem Arlequina com uma premissa pseudo-dramática sobre o término do seu relacionamento com o Coringa, começa uma corrida (desesperada) para construir algumas situações que possam justificar a criação do grupo que dá nome ao filme: "Aves de Rapina"; e mesmo o roteiro sendo inteligente na apresentação de cada uma das personagens: Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), quebrando muitas vezes a linearidade do tempo, as motivações de cada uma delas, são tão superficiais e batidas que refletem até em um personagem que tinha tudo para ser assustador ao melhor estilo Hannibal Lecter, o Máscara Negra (Ewan McGregor), mas que acaba soando como um garoto mimado que se irrita quando ele acha que alguém "está rindo da cara dele" (sim, existe essa cena no filme)!

Como é possível observar no trailer, e talvez por isso criou-se uma expectativa enorme sobre o seu lançamento, a novata diretora Cathy Yan assume a violência nua e crua em cenas de lutas extremamente bem coreografadas ao melhor estilo Demolidor (Netflix) na tentativa explícita de empoderar suas personagens femininas - e ela consegue cumprir sua missão com louvor. O balé da ação por trás das habilidades circenses de Arlequina pode não ter a mesma tensão e potência como em "Esquadrão Suicida", mas continua com aquele enorme carisma graças ao excelente trabalho da Margot Robbie - ela funciona tanto nas cenas mais dramáticas, quando nas escrachadas. A precisão cirúrgica da Caçadora e a habilidade natural de Renee Montoya estão muito bem justificadas e completamente dentro do contexto do filme, apenas o poder da Canário Negro que cai de para-quedas e ninguém nunca mais toca no assunto - é quase como se sua habilidade fosse a luta de rua e não a força de sua voz!

A partir daqui peço licença para refletir sobre as escolhas da DC, sem clubismo: "Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" tem o seu mérito como subproduto da DC, mas o que me incomodou novamente, e isso não deve influenciar no gosto pessoal de ninguém, foi a falta de planejamento da DC, já que ela está tentando reconstruir seu Universo depois de algumas bobagens. Se houve um acerto tão claro e reconhecido como "Coringa" e mesmo que a proposta dos produtos sejam completamente diferentes (e são!), não se pode esquecer dos pontos de convergência entre as histórias, afinal ambas se passam em Gotham, por exemplo: então por que é tudo tão diferente? Os anos passaram entre uma história e outra, claro, mas houve algum reflexo na cidade, nos personagens? Nada é falado... Tudo fica  ainda mais confuso quando os executivos vem à público dizer que o filme é independente - mas meu amigo, existem várias referências ao desastroso "Esquadrão Suicida" e nenhuma sobre o novo Universo DC... cadê a coerência?

"Aves de Rapina" pode ser um acerto para quem entende que existe uma dinâmica diferente entre as obras e um distanciamento natural entre as histórias, que a liberdade artística pode influenciar no resultado individual, mas nunca como um todo e que a forma como está sendo pensado e criado o novo DCU é só para um ou outro selo da marca, com os personagens principais e tal... Não sei, para mim não convenceu, mas, como reforço, essa é só a minha opinião!

Se você gosta de filmes de ação, cheio de piadas e com alguma referência aos quadrinhos, é possível que você se divirta com "Aves de Rapina", se você espera um filmaço como "Coringa" nem perca seu tempo!

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Bacurau

Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!

No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.

Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:

Não é  por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!

Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.

"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.

Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.

Vale muito a pena!

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Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!

No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.

Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:

Não é  por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!

Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.

"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.

Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.

Vale muito a pena!

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Bastardos Inglórios

"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!

Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:

Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.

Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.

Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!

Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!

É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?

Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!

Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee

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"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!

Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:

Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.

Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.

Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!

Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!

É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?

Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!

Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee

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Bata antes de Entrar

Angustiante - eu só te digo isso: angustiante!!! "Bata antes de Entrar" acompanha a história do que acontece na vida de um homem depois que duas lindas belas mulheres que, em uma noite chuvosa, batem na sua porta. Evan Webber (Keanu Reeves) está sozinho em casa, já que a esposa e filho estão viajando. Não demora muito para que essas mulheres o seduzam, tendo uma noite de amor com ele. Só que, no dia seguinte, elas passam a persegui-lo implacavelmente, transformando uma ato de fraqueza em uma experiência macabra! Confira o trailer:

Eu achei o roteiro muito bom, mas o estilo do Eli Roth ("O Albergue"não me agradou, pelo simples fato que ele transformou um roteiro com muito potencial em um típico enlatado americano - certamente, poderia ter ficado muito melhor na mão de um diretor com mais conceito estético. Eu assistia o filme e pensava em como ele poderia ter ficado incrível!!!! Fora isso, como entretenimento, acho que cumpre muito bem seu papel. "Bata antes de Entrar" é provocativo ao extremo, um suspense psicológico sem derramar uma gota de sangue (ou, pelo menos, sem derramar muito sangue...rs) que brinca com nossas mais diversas sensações! Olha, não fácil assistir ao filme se você se empatizar com o protagonista!


Vale muito a pena e aguça a curiosidade para assistir a primeira versão de 1977.

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Angustiante - eu só te digo isso: angustiante!!! "Bata antes de Entrar" acompanha a história do que acontece na vida de um homem depois que duas lindas belas mulheres que, em uma noite chuvosa, batem na sua porta. Evan Webber (Keanu Reeves) está sozinho em casa, já que a esposa e filho estão viajando. Não demora muito para que essas mulheres o seduzam, tendo uma noite de amor com ele. Só que, no dia seguinte, elas passam a persegui-lo implacavelmente, transformando uma ato de fraqueza em uma experiência macabra! Confira o trailer:

Eu achei o roteiro muito bom, mas o estilo do Eli Roth ("O Albergue"não me agradou, pelo simples fato que ele transformou um roteiro com muito potencial em um típico enlatado americano - certamente, poderia ter ficado muito melhor na mão de um diretor com mais conceito estético. Eu assistia o filme e pensava em como ele poderia ter ficado incrível!!!! Fora isso, como entretenimento, acho que cumpre muito bem seu papel. "Bata antes de Entrar" é provocativo ao extremo, um suspense psicológico sem derramar uma gota de sangue (ou, pelo menos, sem derramar muito sangue...rs) que brinca com nossas mais diversas sensações! Olha, não fácil assistir ao filme se você se empatizar com o protagonista!


Vale muito a pena e aguça a curiosidade para assistir a primeira versão de 1977.

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Batman

"Batman" é muito bom! Eu diria que é um filme com a identidade de uma DC que a gente, de fato, quer ver! Embora seja um filme longo, com mais de 3 horas de duração, "Batman" é dinâmico na sua proposta narrativa e belíssimo no seu conceito visual. O filme do talentoso Matt Reeves, sem dúvida, tem mais de Nolan do que de Snyder - mas eu vou explicar melhor isso abaixo.

Nos dois anos em que protegeu asruas como Batman (Robert Pattinson), provocando medo no coração dos criminosos, Bruce Wayne mergulhou nas sombras de Gotham City. Com apenas alguns aliados confiáveis – Alfred Pennyworth (Andy Serkis), o comissário James Gordon (Jeffrey Wright); e com uma enorme rede de corrupção, inclusive com personalidades de destaque e muitos policiais da cidade, o vigilante solitário tornou-se a única esperança de vingança entre seus concidadãos. Quando um assassino mira a elite de Gotham com uma série de maquinações sádicas, um rastro de pistas enigmáticas leva Batman, a investigar o submundo da cidade, onde encontra personagens como Selina Kyle, a Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot, também conhecido como Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton, também conhecido como Charada (Paul Dano). À medida que surgem evidências e as ações do criminoso apontam para uma direção mais clara, Batman precisa forjar novas relações, desmascarar o culpado e trazer justiça para Gotham City, há tanto tempo atormentada pelo abuso de poder e pela corrupção. Confira o trailer:

"Batman" tem um roteiro muito inteligente e foi muito estratégico ao posicionar a história do filme depois de "Coringa"de Todd Phillips, que se passa no inicio dos anos 80, e antes do "Cavaleiro das Trevas" - aqui vou citar como referência a HQ, não desdenhando da versão do Nolan (longe disso), mas apenas porque a trilogia acabou criando um linha temporal própria e se analisada em retrospectiva, muita coisa pode não se encaixar nessa nova visão do herói. Se em "Coringa" Bruce Wayne era apenas uma criança e em "Cavaleiro das Trevas", uma versão mais madura, amargurada e cansada; em "Batman", Wayne ainda é jovem, mas depois de dois anos defendendo Gotham, alguns questionamentos já começam assombrar sua cabeça - aliás, esses questionamentos são poeticamente narrados por Pattinson, com uma Gotham chuvosa de fundo, criando uma atmosfera noir ao melhor estilo Sin City (do também, Frank Miller).

Se em "Cavaleiro da Trevas" tínhamos um vilão sádico, doente, imprevisível e cruel, posso dizer que Paul Dano bebe da mesma fonte com seu "Charada" - sua caracterização e seu modus operandi se encaixam perfeitamente naquele mood escuro e depressivo de Gotham, dando uma conotação de "Jogos Mortais" ao filme e provocando o herói a ser o que ele realmente é: um detetive! O plano do Charada é tão obscuro quanto sua identidade, mas a forma como o roteiro vai arquitetando os fatos é surpreendentemente bom - o inicio do terceiro ato chega a ser épico. Pattinson como Batman também convence, as cenas de ação lembram o melhor daquele primeiro ano inesquecível de "Demolidor" e o espirito perturbador do herói que soa como entidade macabra para os vilões, está ali. O problema é o Bruce Wayne do ator - talvez até pelo pouco tempo de tela, faltou desenvolvimento (que facilmente pode ser resolvido em um futuro próximo).

A fotografia do genial Greig Fraser (de "Duna" e "Lion") trabalha tão bem o contraste entre luz e sombra que mesmo com a escuridão (visual) da noite, conseguimos assistir tudo perfeitamente - uma aula de cinematografia para produções recentes com "Game of Thrones", por exemplo. A trilha sonora de Michael Giacchino (vencedor do Oscar por "Up") é outro espetáculo - as sequências com a versão de "Ave Maria" de Franz Schubert são lindas. Agora uma coisa é fato, tudo isso sem uma direção como a de Matt Reeves cairia no lugar comum e em "Batman" nada está no lugar comum, porque tudo se encaixa perfeitamente  - até a armadura e o batmóvel estão incríveis!

"The Batman" (no original) parece entender que o universo sombrio da DC é muito mais interessante do que o amontoado de piadas que só funcionam nos filmes da Marvel. Com "Coringa" nas entrelinhas (prestem muita atenção porque os detalhes estão lá), Reeves dá mais um passo importante para a construção de um universo que, já sabemos, terá uma série do Pinguim (com o mesmo Colin Farrell) na HBO Max. A dúvida que fica é se esse universo pode ser expandido além das fronteiras de Gotham - eu acho que seria um perigo, porque, sinceramente, parece que a DC acertou a mão, mas é melhor não abusar.

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"Batman" é muito bom! Eu diria que é um filme com a identidade de uma DC que a gente, de fato, quer ver! Embora seja um filme longo, com mais de 3 horas de duração, "Batman" é dinâmico na sua proposta narrativa e belíssimo no seu conceito visual. O filme do talentoso Matt Reeves, sem dúvida, tem mais de Nolan do que de Snyder - mas eu vou explicar melhor isso abaixo.

Nos dois anos em que protegeu asruas como Batman (Robert Pattinson), provocando medo no coração dos criminosos, Bruce Wayne mergulhou nas sombras de Gotham City. Com apenas alguns aliados confiáveis – Alfred Pennyworth (Andy Serkis), o comissário James Gordon (Jeffrey Wright); e com uma enorme rede de corrupção, inclusive com personalidades de destaque e muitos policiais da cidade, o vigilante solitário tornou-se a única esperança de vingança entre seus concidadãos. Quando um assassino mira a elite de Gotham com uma série de maquinações sádicas, um rastro de pistas enigmáticas leva Batman, a investigar o submundo da cidade, onde encontra personagens como Selina Kyle, a Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot, também conhecido como Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton, também conhecido como Charada (Paul Dano). À medida que surgem evidências e as ações do criminoso apontam para uma direção mais clara, Batman precisa forjar novas relações, desmascarar o culpado e trazer justiça para Gotham City, há tanto tempo atormentada pelo abuso de poder e pela corrupção. Confira o trailer:

"Batman" tem um roteiro muito inteligente e foi muito estratégico ao posicionar a história do filme depois de "Coringa"de Todd Phillips, que se passa no inicio dos anos 80, e antes do "Cavaleiro das Trevas" - aqui vou citar como referência a HQ, não desdenhando da versão do Nolan (longe disso), mas apenas porque a trilogia acabou criando um linha temporal própria e se analisada em retrospectiva, muita coisa pode não se encaixar nessa nova visão do herói. Se em "Coringa" Bruce Wayne era apenas uma criança e em "Cavaleiro das Trevas", uma versão mais madura, amargurada e cansada; em "Batman", Wayne ainda é jovem, mas depois de dois anos defendendo Gotham, alguns questionamentos já começam assombrar sua cabeça - aliás, esses questionamentos são poeticamente narrados por Pattinson, com uma Gotham chuvosa de fundo, criando uma atmosfera noir ao melhor estilo Sin City (do também, Frank Miller).

Se em "Cavaleiro da Trevas" tínhamos um vilão sádico, doente, imprevisível e cruel, posso dizer que Paul Dano bebe da mesma fonte com seu "Charada" - sua caracterização e seu modus operandi se encaixam perfeitamente naquele mood escuro e depressivo de Gotham, dando uma conotação de "Jogos Mortais" ao filme e provocando o herói a ser o que ele realmente é: um detetive! O plano do Charada é tão obscuro quanto sua identidade, mas a forma como o roteiro vai arquitetando os fatos é surpreendentemente bom - o inicio do terceiro ato chega a ser épico. Pattinson como Batman também convence, as cenas de ação lembram o melhor daquele primeiro ano inesquecível de "Demolidor" e o espirito perturbador do herói que soa como entidade macabra para os vilões, está ali. O problema é o Bruce Wayne do ator - talvez até pelo pouco tempo de tela, faltou desenvolvimento (que facilmente pode ser resolvido em um futuro próximo).

A fotografia do genial Greig Fraser (de "Duna" e "Lion") trabalha tão bem o contraste entre luz e sombra que mesmo com a escuridão (visual) da noite, conseguimos assistir tudo perfeitamente - uma aula de cinematografia para produções recentes com "Game of Thrones", por exemplo. A trilha sonora de Michael Giacchino (vencedor do Oscar por "Up") é outro espetáculo - as sequências com a versão de "Ave Maria" de Franz Schubert são lindas. Agora uma coisa é fato, tudo isso sem uma direção como a de Matt Reeves cairia no lugar comum e em "Batman" nada está no lugar comum, porque tudo se encaixa perfeitamente  - até a armadura e o batmóvel estão incríveis!

"The Batman" (no original) parece entender que o universo sombrio da DC é muito mais interessante do que o amontoado de piadas que só funcionam nos filmes da Marvel. Com "Coringa" nas entrelinhas (prestem muita atenção porque os detalhes estão lá), Reeves dá mais um passo importante para a construção de um universo que, já sabemos, terá uma série do Pinguim (com o mesmo Colin Farrell) na HBO Max. A dúvida que fica é se esse universo pode ser expandido além das fronteiras de Gotham - eu acho que seria um perigo, porque, sinceramente, parece que a DC acertou a mão, mas é melhor não abusar.

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Batman - A Piada Mortal

Se alguém me perguntasse o que eu faria depois de "Coringa" do Todd Phillips e do "Batman"do Matt Reeves, eu responderia tranquilamente: adaptaria "Batman - A Piada Mortal" em live-action - minha única dúvida seria se eu usaria o final que vemos na tela ou de fato mostraria o que aconteceu após a "piada" do Coringa pela mente brilhante de Alan Moore! Dito isso, posso afirmar sem medo de errar que esse filme em animação da DC é simplesmente sensacional, mas, como já é possível imaginar, é também polêmico - já que nem todos vão entender a genialidade do diretor Sam Liu (A Morte do Superman) a partir do roteiro de Brian Azzarello e da HQ de Moore.

Na história acompanhamos um Batman enfurecido procurando o fugitivo Coringa depois de uma ataque covarde à família Gordon com o único intuito de provar sua tese, da maneira mais diabólica, que inocentaria sua própria descendência na loucura. Confira o trailer (em inglês):

"A Piada Mortal" foi lançada em 1988 e rapidamente se tornou um enorme sucesso e referência entre os leitores das HQs do Batman. Depois de assistir uma adaptação tão fiel como "Batman e o Longo dia das Bruxas", eu diria que a DC se superou, pois ela conseguiu expandir ainda mais o universo criado por Moore e ainda honrar a sua obra original sem deixar de lado toda aquela autenticidade e visão criativa.

Veja, se na HQ a Batgirl estava inserida na história somente para alavancar a trama de outros personagens, aqui ela é peça importante na humanização do herói - que casa perfeitamente com o perfil estabelecido por Reeves em "The Batman". Outro ponto alto e muito bem explorado, sem dúvida, é a participação do Coringa - e aqui é impossível não fazer a conexão que citei na apresentação desse review. Brilhantemente interpretado por Mark Hamill (o Luke Skywalker de "Star Wars"), esse Coringa tem o sadismo no olhar, a loucura nos gestos e a inteligência nos discursos como na performance deJoaquin Phoenix - sua última piada é uma resposta simplesmente genial para uma "proposta" (que nunca seria cumprida) do Batman. É lindo de ver (e de imaginar na voz do ator).

Essa animação é basicamente sobre a "loucura". Sabendo que o original de Moore se baseou no livro "A História da Loucura" do sociólogo Michel Foucault, fica clara a preocupação do diretor em explorar cada detalhe da psiquê dos personagens e os gatilhos (ou atitudes) que fariam cada um deles serem classificados como "loucos" dentro de um contexto. São várias passagens, da violência da Batgirl às atitudes do Comissário Gordon e do próprio Batman no final da história - algumas referências nas cenas onde a animação explora o passado do Coringa, embora diferentes do filme de Phillips, na essência transformadora são as mesmas; e muito marcantes!

Visualmente, "A Piada Mortal" não tem a beleza e mood  depressivo de "Batman e o Longo dia das Bruxas", mas também está longe de ser simplista. Existe um charme nos traços, principalmente dos personagens - eu só senti falta de uma Gotham mais sombria, opressora, escura. A própria narração da Batgirl no inicio da jornada pontua esse clima menos denso. Resumindo, essa animação consegue mostrar, mais uma vez, a força de um personagem que parece vai ser levado a sério daqui para frente nos cinemas, com um universo rico, cheio de conexões entre passado e presente, e que estão prontos para serem aproveitados - sem se esquecer da reflexão honesta e profunda sobre a diferença ente propósito e loucura.

Vale muito seu play!

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Se alguém me perguntasse o que eu faria depois de "Coringa" do Todd Phillips e do "Batman"do Matt Reeves, eu responderia tranquilamente: adaptaria "Batman - A Piada Mortal" em live-action - minha única dúvida seria se eu usaria o final que vemos na tela ou de fato mostraria o que aconteceu após a "piada" do Coringa pela mente brilhante de Alan Moore! Dito isso, posso afirmar sem medo de errar que esse filme em animação da DC é simplesmente sensacional, mas, como já é possível imaginar, é também polêmico - já que nem todos vão entender a genialidade do diretor Sam Liu (A Morte do Superman) a partir do roteiro de Brian Azzarello e da HQ de Moore.

Na história acompanhamos um Batman enfurecido procurando o fugitivo Coringa depois de uma ataque covarde à família Gordon com o único intuito de provar sua tese, da maneira mais diabólica, que inocentaria sua própria descendência na loucura. Confira o trailer (em inglês):

"A Piada Mortal" foi lançada em 1988 e rapidamente se tornou um enorme sucesso e referência entre os leitores das HQs do Batman. Depois de assistir uma adaptação tão fiel como "Batman e o Longo dia das Bruxas", eu diria que a DC se superou, pois ela conseguiu expandir ainda mais o universo criado por Moore e ainda honrar a sua obra original sem deixar de lado toda aquela autenticidade e visão criativa.

Veja, se na HQ a Batgirl estava inserida na história somente para alavancar a trama de outros personagens, aqui ela é peça importante na humanização do herói - que casa perfeitamente com o perfil estabelecido por Reeves em "The Batman". Outro ponto alto e muito bem explorado, sem dúvida, é a participação do Coringa - e aqui é impossível não fazer a conexão que citei na apresentação desse review. Brilhantemente interpretado por Mark Hamill (o Luke Skywalker de "Star Wars"), esse Coringa tem o sadismo no olhar, a loucura nos gestos e a inteligência nos discursos como na performance deJoaquin Phoenix - sua última piada é uma resposta simplesmente genial para uma "proposta" (que nunca seria cumprida) do Batman. É lindo de ver (e de imaginar na voz do ator).

Essa animação é basicamente sobre a "loucura". Sabendo que o original de Moore se baseou no livro "A História da Loucura" do sociólogo Michel Foucault, fica clara a preocupação do diretor em explorar cada detalhe da psiquê dos personagens e os gatilhos (ou atitudes) que fariam cada um deles serem classificados como "loucos" dentro de um contexto. São várias passagens, da violência da Batgirl às atitudes do Comissário Gordon e do próprio Batman no final da história - algumas referências nas cenas onde a animação explora o passado do Coringa, embora diferentes do filme de Phillips, na essência transformadora são as mesmas; e muito marcantes!

Visualmente, "A Piada Mortal" não tem a beleza e mood  depressivo de "Batman e o Longo dia das Bruxas", mas também está longe de ser simplista. Existe um charme nos traços, principalmente dos personagens - eu só senti falta de uma Gotham mais sombria, opressora, escura. A própria narração da Batgirl no inicio da jornada pontua esse clima menos denso. Resumindo, essa animação consegue mostrar, mais uma vez, a força de um personagem que parece vai ser levado a sério daqui para frente nos cinemas, com um universo rico, cheio de conexões entre passado e presente, e que estão prontos para serem aproveitados - sem se esquecer da reflexão honesta e profunda sobre a diferença ente propósito e loucura.

Vale muito seu play!

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Batman e o Longo dia das Bruxas - parte 1

"Batman e o Longo dia das Bruxas" é uma adaptação em duas partes de uma série de HQs deJeph Loeb eTim Sale, publicadas entre os anos de 1996 e 1997. O interessante dessa animação é que muito do momento do herói, o clima completamente noir e alguns personagens não tão conhecidos do grande público, também estarão no filme "The Batman" do Matt Reeves - é o caso, por exemplo, do mafioso Carmine Falcone.

Aliás, nessa primeira parte da adaptação, enquanto Batman, o capitão Jim Gordon e o promotor público Harvey Dent (ainda sem se transformar no "Duas Caras", mas com ótimas sacadas do que o personagem pode vir a ser) trabalham lado a lado para eliminar com as atividades ilegais de Falcone em Gotham, porém uma série de assassinatos misteriosos que acontecem apenas nos feriados e que parecem estar vinculados ao mundo da máfia, passam a chamar atenção do herói que agora também precisa lidar com o desconhecido. Confira o trailer:

Veja, se você leu "Batman e o Longo dia das Bruxas" a sensação de assistir a animação será basicamente a mesma - o que faz alguns fãs vibrarem e outros não se interessarem pela mesma obra só que em uma nova mídia. O fato é que o diretor Chris Palmer (de "Superman: O Homem do Amanhã") conseguiu, com a ajuda do roteirista Tim Sheridan, replicar o conceito narrativo e visual da HQ e ainda criar uma dinâmica cinematográfica repleta de mistério e drama - essa é uma característica muito particular da história que funciona perfeitamente na HQ, mas que acaba prejudicando um pouco a experiência na animação por que falta ação - e é até importante que se diga que esse Batman não é um herói maduro, ele soa estar no começo de sua jornada, tentando encontrar um equilíbrio e entendendo que, para realmente livrar a cidade do crime, ele precisará desenvolver suas habilidades como detetive e nem sempre sair para o embate fisico. 

O elenco conta com Josh Duhamel (como Harvey Dent), Billy Burke (como Comissário Gordon), Jensen Ackles (como Batman), Naya Rivera (como Mulher Gato) e Troy Baker (como Coringa). Todos fizeram um competente trabalho, sem ter nenhum tipo de descompasso entre a voz e seus personagens, mas não tem como não referenciar Jensen Ackles - certamente uma das vozes mais consistentes que já tiveram a oportunidade de dublar o homem-morcego.

Esteticamente "Batman e o Longo dia das Bruxas" é lindo, com uma técnica 2D e um traço bem particular, funciona como uma HQ em movimento - as cenas em que Gotham é o cenário, com sua profunda escuridão, um certo brilho de neon e a chuva na contra-luz, olha, deslumbrante. Com relação a jornada, ela é de fato bastante imersiva e traz um mistério que realmente nos provoca - obviamente se você nunca leu a história isso vai ser ainda mais impactante. A fidelidade ao material original traz mais acertos do que erros e o que vemos ao final dessa primeira parte só nos faz querer assistir a segunda o quanto antes.

Para você que gosta de filmes de herói, mas com um roteiro um pouco mais profundo e até provocador, tenho certeza que o play será diversão na certa!

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"Batman e o Longo dia das Bruxas" é uma adaptação em duas partes de uma série de HQs deJeph Loeb eTim Sale, publicadas entre os anos de 1996 e 1997. O interessante dessa animação é que muito do momento do herói, o clima completamente noir e alguns personagens não tão conhecidos do grande público, também estarão no filme "The Batman" do Matt Reeves - é o caso, por exemplo, do mafioso Carmine Falcone.

Aliás, nessa primeira parte da adaptação, enquanto Batman, o capitão Jim Gordon e o promotor público Harvey Dent (ainda sem se transformar no "Duas Caras", mas com ótimas sacadas do que o personagem pode vir a ser) trabalham lado a lado para eliminar com as atividades ilegais de Falcone em Gotham, porém uma série de assassinatos misteriosos que acontecem apenas nos feriados e que parecem estar vinculados ao mundo da máfia, passam a chamar atenção do herói que agora também precisa lidar com o desconhecido. Confira o trailer:

Veja, se você leu "Batman e o Longo dia das Bruxas" a sensação de assistir a animação será basicamente a mesma - o que faz alguns fãs vibrarem e outros não se interessarem pela mesma obra só que em uma nova mídia. O fato é que o diretor Chris Palmer (de "Superman: O Homem do Amanhã") conseguiu, com a ajuda do roteirista Tim Sheridan, replicar o conceito narrativo e visual da HQ e ainda criar uma dinâmica cinematográfica repleta de mistério e drama - essa é uma característica muito particular da história que funciona perfeitamente na HQ, mas que acaba prejudicando um pouco a experiência na animação por que falta ação - e é até importante que se diga que esse Batman não é um herói maduro, ele soa estar no começo de sua jornada, tentando encontrar um equilíbrio e entendendo que, para realmente livrar a cidade do crime, ele precisará desenvolver suas habilidades como detetive e nem sempre sair para o embate fisico. 

O elenco conta com Josh Duhamel (como Harvey Dent), Billy Burke (como Comissário Gordon), Jensen Ackles (como Batman), Naya Rivera (como Mulher Gato) e Troy Baker (como Coringa). Todos fizeram um competente trabalho, sem ter nenhum tipo de descompasso entre a voz e seus personagens, mas não tem como não referenciar Jensen Ackles - certamente uma das vozes mais consistentes que já tiveram a oportunidade de dublar o homem-morcego.

Esteticamente "Batman e o Longo dia das Bruxas" é lindo, com uma técnica 2D e um traço bem particular, funciona como uma HQ em movimento - as cenas em que Gotham é o cenário, com sua profunda escuridão, um certo brilho de neon e a chuva na contra-luz, olha, deslumbrante. Com relação a jornada, ela é de fato bastante imersiva e traz um mistério que realmente nos provoca - obviamente se você nunca leu a história isso vai ser ainda mais impactante. A fidelidade ao material original traz mais acertos do que erros e o que vemos ao final dessa primeira parte só nos faz querer assistir a segunda o quanto antes.

Para você que gosta de filmes de herói, mas com um roteiro um pouco mais profundo e até provocador, tenho certeza que o play será diversão na certa!

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Batman e o Longo dia das Bruxas - parte 2

A parte 2 do "Batman e o Longo dia das Bruxas" é ainda melhor, mais dinâmica, que a "parte 1", embora o roteiro vacile um pouquinho mais na transição que Gotham está vivendo devido a chegada de um vigilante noturno e justiceiro implacável como "Batman" - e mais uma vez: essa animação insere várias informações que serão relevantes, inclusive, no novo filme de Matt Reeves, "The Batman".

Na parte final de "Batman e o Longo dia das Bruxas", o assassino conhecido como Feriado (sim, o nome em inglês é muito mais charmoso) continua à solta e Batman, mesmo sofrendo com uma crise de identidade após os eventos da primeira parte, precisa ajudar Harvey Dent e o Comissário Gordon que tentam de todas as formas acabar de uma vez por todas com a onda de mortes causadas pelo serial killer,porém uma nova leva (agora) de super-vilões vem surgindo em Gotham e o Homem-Morcego precisa lidar com o peso da sua existência e o reflexo das suas ações no mundo do crime. Confira o trailer:

Obviamente que a premissa segue as consequências da primeira parte da animação, com a mesma atmosfera noir de uma Gotham, que mesmo atemporal, tem um ar “anos 30”, porém a mudança na jornada do herói parece mais claro e o que foi apenas sugerido com a presença do Coringa antes, agora ganha força e os vilões normais, mafiosos e corruptos, passam a ter a ajuda de personagens com poderes e naturalmente mais insanos - aliás, aqui pode estar uma vacilada do roteiro, pois ele não estabelece exatamente o ponto de virada e nem justifica algumas aproximações que vemos na animação, digamos que fica "subentendido": a relação de Bruce Wayne e Hera Venenosa (Katee Sackhoff), é um exemplo.

Por outro lado, essa continuação tem mais ação, não se preocupando tanto em mergulhar nas dores ou nas aflições dos personagens - nesse sentido, o ponto alto é a conclusão do arco de Harvey Dent que finalmente se transforma em Duas Caras. Dent tem suas motivações claras, mas ainda assim alguns pontos soaram nebulosos para mim: a razão pela qual a psique assassinada começa a domina-lo (qual foi o gatilho para isso acontecer?) e a sua aliança (improvável) com Solomon Grundy (Fred Tatasciore) são mais dois "vacilos" do roteiro. Claro que  que eu sei que os vilões aparecem de maneira substancialmente semelhante na HQ, mas a fidelidade com a história original que funcionou muito bem na parte 1, quando o número de personagens era infinitamente menor, aqui me pareceu um pouco atropelado demais.

Veja, não que os vilões clássicos não devessem aparecer, mas é que eles simplesmente caem de paraquedas, sem nenhum pretexto aparente - tanto a já comentada Hera Venenosa, como o Espantalho (Robin Atkin Downes), o Chapeleiro Maluco (John DiMaggio) e, principalmente, o Pinguim (David Dastmalchian), poderiam ser melhor apresentados. E aqui cabe um comentário, no filme "The Batman" essa transição parece melhor desenvolvida, então se você usar as duas histórias, se posicionando na linha temporal de Gotham, é possível que sua experiência seja mais completa - a própria cena de Falcone sendo salvo por Thomas Wayne e de Bruce discutindo sobre o caráter do seu pai com Alfred, que funcionam muito bem no filme, na animação parecem até ser uma uma expansão da narrativa.

As duas partes de "Batman e o Longo dia das Bruxas" são extremamente satisfatórias, mas como adaptação acabou ficando muito presa ao material original e essas gaps apareceram na hora que a história pediu mais ação. Um pouco mais de ousadia e de tempo de tela poderiam transformar essa jornada em algo épico - uma minissérie de de 4 ou 6 episódios para estabelecer algumas relações funcionaria perfeitamente, mas também não podemos esquecer que agora temos o cinema e o HBO Max para cumprir com esse papel - o jogo não está perdido, ele está só começando. "Star Wars" que o diga! 

Vale seu play!

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A parte 2 do "Batman e o Longo dia das Bruxas" é ainda melhor, mais dinâmica, que a "parte 1", embora o roteiro vacile um pouquinho mais na transição que Gotham está vivendo devido a chegada de um vigilante noturno e justiceiro implacável como "Batman" - e mais uma vez: essa animação insere várias informações que serão relevantes, inclusive, no novo filme de Matt Reeves, "The Batman".

Na parte final de "Batman e o Longo dia das Bruxas", o assassino conhecido como Feriado (sim, o nome em inglês é muito mais charmoso) continua à solta e Batman, mesmo sofrendo com uma crise de identidade após os eventos da primeira parte, precisa ajudar Harvey Dent e o Comissário Gordon que tentam de todas as formas acabar de uma vez por todas com a onda de mortes causadas pelo serial killer,porém uma nova leva (agora) de super-vilões vem surgindo em Gotham e o Homem-Morcego precisa lidar com o peso da sua existência e o reflexo das suas ações no mundo do crime. Confira o trailer:

Obviamente que a premissa segue as consequências da primeira parte da animação, com a mesma atmosfera noir de uma Gotham, que mesmo atemporal, tem um ar “anos 30”, porém a mudança na jornada do herói parece mais claro e o que foi apenas sugerido com a presença do Coringa antes, agora ganha força e os vilões normais, mafiosos e corruptos, passam a ter a ajuda de personagens com poderes e naturalmente mais insanos - aliás, aqui pode estar uma vacilada do roteiro, pois ele não estabelece exatamente o ponto de virada e nem justifica algumas aproximações que vemos na animação, digamos que fica "subentendido": a relação de Bruce Wayne e Hera Venenosa (Katee Sackhoff), é um exemplo.

Por outro lado, essa continuação tem mais ação, não se preocupando tanto em mergulhar nas dores ou nas aflições dos personagens - nesse sentido, o ponto alto é a conclusão do arco de Harvey Dent que finalmente se transforma em Duas Caras. Dent tem suas motivações claras, mas ainda assim alguns pontos soaram nebulosos para mim: a razão pela qual a psique assassinada começa a domina-lo (qual foi o gatilho para isso acontecer?) e a sua aliança (improvável) com Solomon Grundy (Fred Tatasciore) são mais dois "vacilos" do roteiro. Claro que  que eu sei que os vilões aparecem de maneira substancialmente semelhante na HQ, mas a fidelidade com a história original que funcionou muito bem na parte 1, quando o número de personagens era infinitamente menor, aqui me pareceu um pouco atropelado demais.

Veja, não que os vilões clássicos não devessem aparecer, mas é que eles simplesmente caem de paraquedas, sem nenhum pretexto aparente - tanto a já comentada Hera Venenosa, como o Espantalho (Robin Atkin Downes), o Chapeleiro Maluco (John DiMaggio) e, principalmente, o Pinguim (David Dastmalchian), poderiam ser melhor apresentados. E aqui cabe um comentário, no filme "The Batman" essa transição parece melhor desenvolvida, então se você usar as duas histórias, se posicionando na linha temporal de Gotham, é possível que sua experiência seja mais completa - a própria cena de Falcone sendo salvo por Thomas Wayne e de Bruce discutindo sobre o caráter do seu pai com Alfred, que funcionam muito bem no filme, na animação parecem até ser uma uma expansão da narrativa.

As duas partes de "Batman e o Longo dia das Bruxas" são extremamente satisfatórias, mas como adaptação acabou ficando muito presa ao material original e essas gaps apareceram na hora que a história pediu mais ação. Um pouco mais de ousadia e de tempo de tela poderiam transformar essa jornada em algo épico - uma minissérie de de 4 ou 6 episódios para estabelecer algumas relações funcionaria perfeitamente, mas também não podemos esquecer que agora temos o cinema e o HBO Max para cumprir com esse papel - o jogo não está perdido, ele está só começando. "Star Wars" que o diga! 

Vale seu play!

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Cadáver

"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.

Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:

Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!

Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.

Assista Agora ou

"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.

Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:

Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!

Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.

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Coringa

É preciso dizer que "Coringa" é o melhor filme que a DC produziu desde o "Cavaleiro das Trevas" do Nolan!!! O filme é simplesmente sensacional - eu diria que quase perfeito (e mais abaixo vou explicar por onde, na minha opinião, escapou a perfeição). Algumas observações para você que está muito ansioso para assistir: o filme é uma verdadeira imersão na "sombra" do personagem, na construção da jornada de transformação e nas suas motivações. "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA. Esse novo selo da DC deu a liberdade que algumas histórias pediam e fica claro na tela que a violência, a profundidade psíquica, o cuidado no roteiro e o conceito estético são pilares que devem ser seguidos daqui para frente, porque o resultado é incrível!

"Coringa" segue a vida Arthur Fleck, um aspirante a comediante, completamente fracassado e com uma condição mental bastante peculiar onde, em determinados momentos,  o faz rir compulsivamente (normalmente o gatilho vem do seu estado emocional fragilizado ou ameaçado). Morando com mãe, Fleck é um pacato ser humano, vítima de uma sociedade elitista e preconceituosa. Aliás, aqui vem o primeiro elogio ao roteiro: situar a história no começo dos anos 80 permitiu não só construir um novo personagem como também iniciar uma gênese que pode servir de base para futuros filmes. Em "Coringa" vemos porque Gothan se tornou tão violenta e como a dinastia Wayne interferiu nessa realidade. Aliás não foi preciso citar nada além do que vemos na tela para nos sentirmos familiarizados com aquele Universo de tão bem construído que foi. Só espero que a DC saiba usar isso com inteligência e que as informações que foram veiculadas sobre a independência dos filmes desse selo seja revista, porque seria um pecado não aproveitar "Coringa" para nada!

O roteiro é poético ao mesmo tempo que é extremamente violento. O diretor Todd Phillips ("Se beber, não case") merece uma indicação ao Oscar, pois seu trabalho é simplesmente perfeito. Ele achou o tom do filme, alinhou com a espetacular atuação de Joaquin Phoenix (que também vai ser indicado) e finalizou com uma fotografia lindíssima de um surpreendente Lawrence Sher (Godzilla II e Cães de Guerra). O roteiro é super original até para quem ama o personagem e acompanha os quadrinhos, porém peca em dois únicos momentos (e aí parece muito mais culpa ou pressão do Estúdio, do que um preciosismo dos roteiristas): quando explica as alucinações de Fleck (não precisava explicar, estava claro, o corte já contava essa história, não precisava mastigar para o público - deu raiva) e quando, mais uma vez, mostra o destino dos Wayne saindo do cinema - sério, eu já não aguento mais assistir aquele colar de pérolas caindo (desperdício de oportunidade de só sugestionar uma situação e trabalhar com a memória emotiva de quem acompanha a saga do Batman há anos). A edição de som, mixagem, a trilha sonora e o desenho de produção, olha, estão primorosos!

"Coringa" vai levar Phoenix ao Oscar por entregar um personagem tão bem construído (ou mais) que Heath Ledger. A comparação será inevitável, mas injusta, pois não se trata de um filme do Batman e sim do Coringa, mas se pensarmos como uma homenagem, meu Deus, que personagem complexo e profundo que vemos nesse filme - os caras deveriam ter feito uma série sobre ele (rs)! O filme é tão bom, tão dinâmico, tão redondo, que nem vemos o tempo passar e chegamos a torcer para que ele não acabe - e são duas horas de filme!!! Puxa, é preciso admitir que foi um grande trabalho da DC e, pode apostar, vai render pelo menos umas 5 indicações no próximo Oscar - me cobrem! Grande acerto, só, por favor, não estraguem essa obra-prima com o que já está planejado!!!

Assistam o que foi, para mim, um dos melhore filmes do ano até aqui! Mesmo!!!

Up-date: "Coringa" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator!

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É preciso dizer que "Coringa" é o melhor filme que a DC produziu desde o "Cavaleiro das Trevas" do Nolan!!! O filme é simplesmente sensacional - eu diria que quase perfeito (e mais abaixo vou explicar por onde, na minha opinião, escapou a perfeição). Algumas observações para você que está muito ansioso para assistir: o filme é uma verdadeira imersão na "sombra" do personagem, na construção da jornada de transformação e nas suas motivações. "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA. Esse novo selo da DC deu a liberdade que algumas histórias pediam e fica claro na tela que a violência, a profundidade psíquica, o cuidado no roteiro e o conceito estético são pilares que devem ser seguidos daqui para frente, porque o resultado é incrível!

"Coringa" segue a vida Arthur Fleck, um aspirante a comediante, completamente fracassado e com uma condição mental bastante peculiar onde, em determinados momentos,  o faz rir compulsivamente (normalmente o gatilho vem do seu estado emocional fragilizado ou ameaçado). Morando com mãe, Fleck é um pacato ser humano, vítima de uma sociedade elitista e preconceituosa. Aliás, aqui vem o primeiro elogio ao roteiro: situar a história no começo dos anos 80 permitiu não só construir um novo personagem como também iniciar uma gênese que pode servir de base para futuros filmes. Em "Coringa" vemos porque Gothan se tornou tão violenta e como a dinastia Wayne interferiu nessa realidade. Aliás não foi preciso citar nada além do que vemos na tela para nos sentirmos familiarizados com aquele Universo de tão bem construído que foi. Só espero que a DC saiba usar isso com inteligência e que as informações que foram veiculadas sobre a independência dos filmes desse selo seja revista, porque seria um pecado não aproveitar "Coringa" para nada!

O roteiro é poético ao mesmo tempo que é extremamente violento. O diretor Todd Phillips ("Se beber, não case") merece uma indicação ao Oscar, pois seu trabalho é simplesmente perfeito. Ele achou o tom do filme, alinhou com a espetacular atuação de Joaquin Phoenix (que também vai ser indicado) e finalizou com uma fotografia lindíssima de um surpreendente Lawrence Sher (Godzilla II e Cães de Guerra). O roteiro é super original até para quem ama o personagem e acompanha os quadrinhos, porém peca em dois únicos momentos (e aí parece muito mais culpa ou pressão do Estúdio, do que um preciosismo dos roteiristas): quando explica as alucinações de Fleck (não precisava explicar, estava claro, o corte já contava essa história, não precisava mastigar para o público - deu raiva) e quando, mais uma vez, mostra o destino dos Wayne saindo do cinema - sério, eu já não aguento mais assistir aquele colar de pérolas caindo (desperdício de oportunidade de só sugestionar uma situação e trabalhar com a memória emotiva de quem acompanha a saga do Batman há anos). A edição de som, mixagem, a trilha sonora e o desenho de produção, olha, estão primorosos!

"Coringa" vai levar Phoenix ao Oscar por entregar um personagem tão bem construído (ou mais) que Heath Ledger. A comparação será inevitável, mas injusta, pois não se trata de um filme do Batman e sim do Coringa, mas se pensarmos como uma homenagem, meu Deus, que personagem complexo e profundo que vemos nesse filme - os caras deveriam ter feito uma série sobre ele (rs)! O filme é tão bom, tão dinâmico, tão redondo, que nem vemos o tempo passar e chegamos a torcer para que ele não acabe - e são duas horas de filme!!! Puxa, é preciso admitir que foi um grande trabalho da DC e, pode apostar, vai render pelo menos umas 5 indicações no próximo Oscar - me cobrem! Grande acerto, só, por favor, não estraguem essa obra-prima com o que já está planejado!!!

Assistam o que foi, para mim, um dos melhore filmes do ano até aqui! Mesmo!!!

Up-date: "Coringa" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator!

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Drive

"Drive" é um excelente filme de ação carregado de drama, filmado pela lente poética de um grande diretor que em nenhum momento teve a preocupação de se apoiar em elementos narrativos que colocariam a história no lugar comum. "Drive" sem Nicolas Winding Refn ("Demônio de Neon") seria como "Breaking Bad" sem Vince Gilligan!

Na trama, Ryan Gosling é um habilidoso motorista que trabalha como dublê de Hollywood, mas que costuma usar seu talento no volante, pontualmente, dirigindo em fugas de assaltos. Quando ele se vê envolvido emocionalmente com sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e com o filho, Benício (Kaden Leos), esse motorista (que propositalmente não tem um nome) tenta salvar a pele do marido dela, Standard (Oscar Isaac), que acaba de sair da prisão, para que eles possam viver em paz e em família, mas, claro, as coisas não saem exatamente como planejado. Confira o trailer (em inglês):

Em inglês,drive não significa apenas dirigir, pilotar, mas também tem uma outra conotação: algo como impulso ou motivação. O personagem de Gosling é justamente um homem movido pela ação nessa dupla interpretação do título original do filme - o interessante é que essa dualidade também brinca com a cadência da história e de como o protagonista se posiciona perante seus desafios - sua introspecção e o silêncio se opõem a velocidade (olha que sensacional) das suas ações de uma forma infinitamente mais lenta que sua principal habilidade exige. Mérito dessa leitura quase poética é do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2012 e levou esse filme até a disputa da Palma de Ouro - mesmo com a Academia supreendentemente tendo ignorado "Drive" para o Oscar daquele ano, o indicando apenas em "Edição de Som".

É importante pontuar que o roteiro de "Drive", escrito por Hossein Amini (de "McMafia") a partir da adaptação do livro homônimo de James Sallis, busca expor uma personalidade pacata do protagonista como gatilho para nos conectarmos com sua jornada - é na tentativa de ajudar alguém que nunca esteve ao seu lado, que faz o personagem se transformar pelo meio em que se inseriu ou pelas próprias circunstâncias - e aqui é impossível não lembrar de Gilligan novamente e do seu Walter White.  A forma como Winding Refn nos faz experienciar a jornada desse motorista é muito potente - por mais que tenhamos poucas informações sobre ele, estamos sempre ao seu lado, como testemunhas de suas ações e transformações.

A fotografia do talentoso Newton Thomas Sigel (de "Os Suspeitos") traz uma sensação de solidão impressionante, mesmo o filme se passando em Los Angeles. Mais uma vez o diretor brinca com essa dualidade narrativa e é por isso que coloco "Drive" como uma obra de arte, muito mais profundo que a maioria dos filmes de ação, mas sem perder a emoção e a tensão do gênero. 

"Drive" merece ser apreciado, no seu tempo, mesmo que ele seja completamente diferente do que se espera de um filme de ação, mas não se engane: ele é muito violento e impactante visualmente - como se fosse um "Tarantino", com aquele esmero artístico e conceitual. Lindo de ver!

Vale muito a pena!

Assista Agora

"Drive" é um excelente filme de ação carregado de drama, filmado pela lente poética de um grande diretor que em nenhum momento teve a preocupação de se apoiar em elementos narrativos que colocariam a história no lugar comum. "Drive" sem Nicolas Winding Refn ("Demônio de Neon") seria como "Breaking Bad" sem Vince Gilligan!

Na trama, Ryan Gosling é um habilidoso motorista que trabalha como dublê de Hollywood, mas que costuma usar seu talento no volante, pontualmente, dirigindo em fugas de assaltos. Quando ele se vê envolvido emocionalmente com sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e com o filho, Benício (Kaden Leos), esse motorista (que propositalmente não tem um nome) tenta salvar a pele do marido dela, Standard (Oscar Isaac), que acaba de sair da prisão, para que eles possam viver em paz e em família, mas, claro, as coisas não saem exatamente como planejado. Confira o trailer (em inglês):

Em inglês,drive não significa apenas dirigir, pilotar, mas também tem uma outra conotação: algo como impulso ou motivação. O personagem de Gosling é justamente um homem movido pela ação nessa dupla interpretação do título original do filme - o interessante é que essa dualidade também brinca com a cadência da história e de como o protagonista se posiciona perante seus desafios - sua introspecção e o silêncio se opõem a velocidade (olha que sensacional) das suas ações de uma forma infinitamente mais lenta que sua principal habilidade exige. Mérito dessa leitura quase poética é do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2012 e levou esse filme até a disputa da Palma de Ouro - mesmo com a Academia supreendentemente tendo ignorado "Drive" para o Oscar daquele ano, o indicando apenas em "Edição de Som".

É importante pontuar que o roteiro de "Drive", escrito por Hossein Amini (de "McMafia") a partir da adaptação do livro homônimo de James Sallis, busca expor uma personalidade pacata do protagonista como gatilho para nos conectarmos com sua jornada - é na tentativa de ajudar alguém que nunca esteve ao seu lado, que faz o personagem se transformar pelo meio em que se inseriu ou pelas próprias circunstâncias - e aqui é impossível não lembrar de Gilligan novamente e do seu Walter White.  A forma como Winding Refn nos faz experienciar a jornada desse motorista é muito potente - por mais que tenhamos poucas informações sobre ele, estamos sempre ao seu lado, como testemunhas de suas ações e transformações.

A fotografia do talentoso Newton Thomas Sigel (de "Os Suspeitos") traz uma sensação de solidão impressionante, mesmo o filme se passando em Los Angeles. Mais uma vez o diretor brinca com essa dualidade narrativa e é por isso que coloco "Drive" como uma obra de arte, muito mais profundo que a maioria dos filmes de ação, mas sem perder a emoção e a tensão do gênero. 

"Drive" merece ser apreciado, no seu tempo, mesmo que ele seja completamente diferente do que se espera de um filme de ação, mas não se engane: ele é muito violento e impactante visualmente - como se fosse um "Tarantino", com aquele esmero artístico e conceitual. Lindo de ver!

Vale muito a pena!

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El Camino

"El Camino" não é um grande filme! Mas antes que as pessoas me destruam por aqui, deixe-me explicar: os 120 minutos de "El Camino" são, na verdade, um Epílogo de "Breaking Bad", um episódio de final de temporada, daqueles de 2 horas, que nos fazem torcer para que nunca acabe de tão contagiante que a história é! Se você não assistiu toda temporada de "Breaking Bad", a chance de você achar "El Camino" apenas "OK" é grande, mas nós que esperamos anos por um pouco mais do que consideramos uma das melhores séries de todos os tempos, aproveitamos cada frame dessa maravilhosa experiência que o Vince Gilligan nos entregou.

Como o Teaser e o Trailer já anunciavam, o filme gira em torno de um Jesse Pinkman (Aaron Paul) atordoado, logo após fugir do cativeiro (fato que acontece justamente no último episódio da série), tentando reencontrar um caminho para sua vida e deixar todo esse passado para trás! O que me surpreendeu é a jornada de transformação que, mais uma vez, Gilligan foi capaz de construir - mas para entender exatamente o que estou falando será preciso ler nossa análise completa. Para você, que precisa apenas da nossa sugestão temos duas opções: 1- Se assistiu a série inteira, assista o filme agora e agradeça a Netflix por ter nos proporcionado mais duas horas de êxtase. 2- Se não se interessou pela série, mas quer ver mesmo assim, se prepare para duas horas de diversão, mas não espere um filme transformador ou inesquecível!

Se arriscar na construção de um novo capítulo depois de alcançar o "Céu" com um final como o de Breaking Bad, 6 anos depois, é algo que poucos fariam! Vince Gilligan fez; e mesmo depois de 4 temporadas de "Better Call Saul", uma ponta parecia solta: o que teria acontecido com Jesse Pinkman? "El Camino" não só responde essa pergunta, como prova, mais uma vez, que além de louco, Gilligan tem total controle sobre suas idéias e sobre todo um universo que ele construiu! "El Camino" não pode ser visto como uma obra isolada, ele é parte de uma estrutura que nos transporta mais uma vez para o Novo Mexico, mas com uma Albuquerque diferente, menos contrastada, quente; agora ela é mais fria, melancólica, angustiante! Em um mês onde "Coringa" bagunçou a mente de quem assistiu, pela sua profundidade psicológica, Jessie Pinkman assume o mesmo papel em "El Camino" - e aqui vai mais um dica: assistam o resumo antes de começar o filme ou, melhor, assistam os 5 últimos episódios de "Breaking Bad" para ter uma imersão 100% segura!

A trama é simples ao mesmo tempo que complexa: Jesse está escapando em um carro El Camino (ah, Vince Gilligan por favor não pare por aqui!!!) após ter sido libertado por Walter White (Bryan Cranston) do cativeiro onde foi forçado a cozinhar metanfetamina por meses - esse momento é imediatamente depois de tudo que vimos em "Felina", episódio final de "Breaking Bad". Com a polícia atrás, já que ele foi reconhecido como cúmplice de Heisenberg encontrado morto no local da chacina, Pinkman é obrigado a procurar alguns personagens marcantes da série para conseguir algum dinheiro ou ter uma oportunidade de um recomeço - aqui é preciso dizer que alguns flashbacks funcionam melhores que outros, pois em alguns momentos Gilligan parece "roubar no jogo" para explicar uma ação do personagem, mas em outros momentos, mesmo ele "roubando no jogo", temos a impressão que tudo aquilo já tinha sido construído anteriormente de tão orgânico que ficou. Pois bem, toda essa jornada é pontuada com uma fotografia típica de Marshall Adams, parceiro conceitual de Gilligan. Grandes angulares, time-lapses, planos inventivos e inesperados, tudo está ali - como deveria ser!

O roteiro é enxuto, direto e cheio de detalhes como Breaking Bad adorava nos presentear. Agora, Aaron Paul, ou melhor, Jesse Pinkman, se transformando em tudo que ele mais odiava no Walter White e comprovando que o discurso transformador de Heisenberg era, no mínimo, coerente - meu Deus, isso foi genial! O ponto alto do filme! Outro detalhe bacana que merece ser observado é a importância que personagens satélites ganharam - pode até soar como Fan Service, mas não dá para negar que foi mais uma jogada inteligente de Gilligan: Old Joe, Skinny Pete (agora o Teaser faz ainda mais sentido), Badger, Neil e até o Ed - olha, que criatividade a favor da história como um todo! Muito legal!

"El Camino" não pode ser o ponto final. Muito do que você vai encontrar deve aparecer em algum  flashfoward de "Better Call Saul" ainda e, quem sabe, em algum outro "filme" ou "série", pois o material, ou melhor, as histórias paralelas parecem ter um força impensável - Pinkman é um exemplo, já que seu personagem não passaria da 1ª temporada de "Breaking Bad". Só torço para que essas surpresas em torno das idéias do Vince Gilligan nunca acabem!!!

Por favor, dê o play e divirta-se com aquela sensação deliciosa de nostalgia temperada com uma espécie de inspiração criativa do mais alto nível!

Assista Agora 

"El Camino" não é um grande filme! Mas antes que as pessoas me destruam por aqui, deixe-me explicar: os 120 minutos de "El Camino" são, na verdade, um Epílogo de "Breaking Bad", um episódio de final de temporada, daqueles de 2 horas, que nos fazem torcer para que nunca acabe de tão contagiante que a história é! Se você não assistiu toda temporada de "Breaking Bad", a chance de você achar "El Camino" apenas "OK" é grande, mas nós que esperamos anos por um pouco mais do que consideramos uma das melhores séries de todos os tempos, aproveitamos cada frame dessa maravilhosa experiência que o Vince Gilligan nos entregou.

Como o Teaser e o Trailer já anunciavam, o filme gira em torno de um Jesse Pinkman (Aaron Paul) atordoado, logo após fugir do cativeiro (fato que acontece justamente no último episódio da série), tentando reencontrar um caminho para sua vida e deixar todo esse passado para trás! O que me surpreendeu é a jornada de transformação que, mais uma vez, Gilligan foi capaz de construir - mas para entender exatamente o que estou falando será preciso ler nossa análise completa. Para você, que precisa apenas da nossa sugestão temos duas opções: 1- Se assistiu a série inteira, assista o filme agora e agradeça a Netflix por ter nos proporcionado mais duas horas de êxtase. 2- Se não se interessou pela série, mas quer ver mesmo assim, se prepare para duas horas de diversão, mas não espere um filme transformador ou inesquecível!

Se arriscar na construção de um novo capítulo depois de alcançar o "Céu" com um final como o de Breaking Bad, 6 anos depois, é algo que poucos fariam! Vince Gilligan fez; e mesmo depois de 4 temporadas de "Better Call Saul", uma ponta parecia solta: o que teria acontecido com Jesse Pinkman? "El Camino" não só responde essa pergunta, como prova, mais uma vez, que além de louco, Gilligan tem total controle sobre suas idéias e sobre todo um universo que ele construiu! "El Camino" não pode ser visto como uma obra isolada, ele é parte de uma estrutura que nos transporta mais uma vez para o Novo Mexico, mas com uma Albuquerque diferente, menos contrastada, quente; agora ela é mais fria, melancólica, angustiante! Em um mês onde "Coringa" bagunçou a mente de quem assistiu, pela sua profundidade psicológica, Jessie Pinkman assume o mesmo papel em "El Camino" - e aqui vai mais um dica: assistam o resumo antes de começar o filme ou, melhor, assistam os 5 últimos episódios de "Breaking Bad" para ter uma imersão 100% segura!

A trama é simples ao mesmo tempo que complexa: Jesse está escapando em um carro El Camino (ah, Vince Gilligan por favor não pare por aqui!!!) após ter sido libertado por Walter White (Bryan Cranston) do cativeiro onde foi forçado a cozinhar metanfetamina por meses - esse momento é imediatamente depois de tudo que vimos em "Felina", episódio final de "Breaking Bad". Com a polícia atrás, já que ele foi reconhecido como cúmplice de Heisenberg encontrado morto no local da chacina, Pinkman é obrigado a procurar alguns personagens marcantes da série para conseguir algum dinheiro ou ter uma oportunidade de um recomeço - aqui é preciso dizer que alguns flashbacks funcionam melhores que outros, pois em alguns momentos Gilligan parece "roubar no jogo" para explicar uma ação do personagem, mas em outros momentos, mesmo ele "roubando no jogo", temos a impressão que tudo aquilo já tinha sido construído anteriormente de tão orgânico que ficou. Pois bem, toda essa jornada é pontuada com uma fotografia típica de Marshall Adams, parceiro conceitual de Gilligan. Grandes angulares, time-lapses, planos inventivos e inesperados, tudo está ali - como deveria ser!

O roteiro é enxuto, direto e cheio de detalhes como Breaking Bad adorava nos presentear. Agora, Aaron Paul, ou melhor, Jesse Pinkman, se transformando em tudo que ele mais odiava no Walter White e comprovando que o discurso transformador de Heisenberg era, no mínimo, coerente - meu Deus, isso foi genial! O ponto alto do filme! Outro detalhe bacana que merece ser observado é a importância que personagens satélites ganharam - pode até soar como Fan Service, mas não dá para negar que foi mais uma jogada inteligente de Gilligan: Old Joe, Skinny Pete (agora o Teaser faz ainda mais sentido), Badger, Neil e até o Ed - olha, que criatividade a favor da história como um todo! Muito legal!

"El Camino" não pode ser o ponto final. Muito do que você vai encontrar deve aparecer em algum  flashfoward de "Better Call Saul" ainda e, quem sabe, em algum outro "filme" ou "série", pois o material, ou melhor, as histórias paralelas parecem ter um força impensável - Pinkman é um exemplo, já que seu personagem não passaria da 1ª temporada de "Breaking Bad". Só torço para que essas surpresas em torno das idéias do Vince Gilligan nunca acabem!!!

Por favor, dê o play e divirta-se com aquela sensação deliciosa de nostalgia temperada com uma espécie de inspiração criativa do mais alto nível!

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Era uma vez em Hollywood

Antes de mais nada é preciso deixar claro que "Era uma vez em… Hollywood" é um filme "escrito e dirigido" pelo Quentin Tarantino e isso trás, por si só, um selo de criatividade que quase sempre desconstrói algumas regras narrativas que estamos acostumados a encontrar em outros filmes. Definir a sinopse de  "Era uma vez em… Hollywood" já me parece um grande desafio, então, seguindo as regras do Tarantino, vou desconstruir a maneira como normalmente analiso os filmes por aqui. Talvez o filme não tenha como foco principal contar a história real de Sharon Tate (Margot Robbie), mas é de vital importância conhece-la: Tate era uma jovem atriz americana em inicio de carreira. Ela foi casada com o diretor Roman Polanski e em "Era uma vez" ela está descobrindo o valor (e o sabor) da fama após o lançamento de seu primeiro filme de destaque. Acontece que na vida real, Tate foi brutalmente assassinada pelas mãos da Família Manson, uma seita de hippies que moravam em um rancho que por muito tempo serviu de cenário para filmes de Faroeste - não preciso dizer que esses maníacos eram seguidores de Charles Manson (Damon Herriman), certo? Ah, e que ele está no filme!

Acontece que Tate é apenas um dos pilares dessa história e está longe de ser uma das protagonistas! Com isso, posso afirmar que a construção da jornada dos outros dois personagens (ou dos outros pilares do filme), é o elemento narrativo mais interessante de "Era uma vez em… Hollywood", pois é na convergência dessa construção que o filme passa a fazer sentido, mesmo com arcos tão distantes do que será entregue no final. Parece complicado, mas na prática vai fazer todo sentido: Rick Dalton (Leonardo de DiCaprio) é um ator que só interpreta vilões e que se vê estagnado na carreira, o que acaba gerando uma enorme insegurança para ele. Já Cliff Booth (Brad Pitt) é seu dublê e fiel escudeiro, embora tenha uma enorme dificuldade para encontrar trabalho por ter um temperamento, digamos, sincero demais e por carregar o peso de uma história onde teria assassinado sua esposa durante um passeio de barco, é um cara seguro e muito bem resolvido! Os dois, ao lado de Tate, estão inseridos em um contexto onde Hollywood tem o poder absoluto de transformar a vida das pessoas, porém ela cobra seu preço e em diferentes níveis - essa é a crítica que Tarantino faz no filme ao mesmo tempo em que se declara como cineasta pela história da televisão e como suas produções tiveram total importância na ascensão de grandes atores e do cinema como um todo.

Se você espera um festival de pancadaria, tiroteios e muito sangue cenográfico como em outros filmes do diretor, é bem possível que você vá se decepcionar. Como sugeri nos parágrafos anteriores, "Era uma vez em… Hollywood" é um filme focado no personagem, nas suas experiências de vida e, principalmente, na sua forma de encarar as situações "cotidianas" que o roteiro propõe - não que os outros filmes do diretor não tivessem isso, mas posso garantir que aqui eles são mais cirúrgicos, quase um estudo de personalidade, o que deflagra elementos de suspense na mesma proporção que encontramos o drama, a ação e a comédia - reparem em toda sequência onde Rick Dalton encontra Trudi Fraser (Julia Butters) antes de filmar uma cena do piloto da série: existe um diálogo sensacional e depois de contracenar com ela na ficção, o diretor nos entrega todos os elementos acima sem ao menos estereotipar qualquer um dos gêneros - isso é muito Tarantino, porém com a mão menos pesada! A cena onde Cliff Booth resolve conferir se seu antigo amigo, dono do rancho onde a família Manson se instalou, está realmente dormindo; é outro grande exemplo do equilíbrio narrativo que o diretor propõem!

Uma coisa que me chamou muito a atenção são os movimentos de câmera extremamente criativos. A câmera passeia entre um plano e outro de uma forma tão orgânica que muitas vezes achei que existia um corte, quando na verdade era um plano sequência. A fotografia do Robert Richardson (o monstro por trás de JFK, Aviador e Hugo) é algo fora do comum - é ele que dá vida as loucuras criativas do Tarantino desde Kill Bill. Ele merece essa mais essa indicação ao Oscar 2020. Uma curiosidade é que tudo foi realmente filmado em locação, ou seja, as cenas em Los Angeles foram feitas nas ruas e estradas da cidade! Tudo foi adereçado e produzido para nos colocar no final dos anos 60! Tudo está lá, sem fundo verde! Outro elemento que vale a referência é o desenho de som: reparem como o som da televisão (e muitas vezes o próprio texto que sai dela) se encaixa perfeitamente nas cenas que acontecem fora dela. Reparem como a rádio dos carros também ajudam a dar o mood daquela Hollywood como se fosse uma espécie de conto de fadas sendo contada. Aliás, meu amigo, que trilha sonora é essa!!!! Importante você reparar (com muita atenção) como nada que o Tarantino pede para colocar no cenário é gratuito - tudo ajuda a compor o personagem ou a ação que ali vai acontecer. Ele nunca rouba no jogo - reparem em tudo: da comida do cachorro que está no armário da cozinha de Cliff Booth aos objetos na garagem de Rick Dalton.

É claro que, como todo filme do Tarantino, uns vão odiar enquanto outros vão idolatrar, porém eu preciso dizer que "Era uma vez em… Hollywood" é uma aula de narrativa, tanto de roteiro quanto de direção. Talvez o filme onde absolutamente todos os atores estão exatamente no tom certo com seus personagens: do diretor da série ao gerente do cinema. Dos hippies da família Manson ao próprio Bruce Lee. Sem falar, claro, no excelente trabalho do Leonardo de DiCaprio - o melhor trabalho da carreira dele até aqui; junto com a Margot Robbie e com Brad Pitt - não se surpreenda se os três forem indicados no próximo ano! 

Grande filme e do fundo do coração, espero que essa análise ajude na sua experiência ao assistir "Era uma vez em… Hollywood", porque é até compreensível não conhecer algumas histórias que o filme referencia, mas como obra cinematográfica, olha, tudo é quase perfeito! Vale seu play!

Ah, antes de terminar:  existe uma cena pós-créditos onde Ricky Dalton faz um comercial para a marca de cigarros Red Apple. Saiba que essa é a marca fumada pelos personagens de Pulp Fiction, Kill Bill e Os Oito Odiados - ela não existe, mas a brincadeira do Tarantino vale pelo alívio cômico!

Up-date: "Era uma vez em… Hollywood" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Design de Produção e Melhor Ator Coadjuvante!

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Antes de mais nada é preciso deixar claro que "Era uma vez em… Hollywood" é um filme "escrito e dirigido" pelo Quentin Tarantino e isso trás, por si só, um selo de criatividade que quase sempre desconstrói algumas regras narrativas que estamos acostumados a encontrar em outros filmes. Definir a sinopse de  "Era uma vez em… Hollywood" já me parece um grande desafio, então, seguindo as regras do Tarantino, vou desconstruir a maneira como normalmente analiso os filmes por aqui. Talvez o filme não tenha como foco principal contar a história real de Sharon Tate (Margot Robbie), mas é de vital importância conhece-la: Tate era uma jovem atriz americana em inicio de carreira. Ela foi casada com o diretor Roman Polanski e em "Era uma vez" ela está descobrindo o valor (e o sabor) da fama após o lançamento de seu primeiro filme de destaque. Acontece que na vida real, Tate foi brutalmente assassinada pelas mãos da Família Manson, uma seita de hippies que moravam em um rancho que por muito tempo serviu de cenário para filmes de Faroeste - não preciso dizer que esses maníacos eram seguidores de Charles Manson (Damon Herriman), certo? Ah, e que ele está no filme!

Acontece que Tate é apenas um dos pilares dessa história e está longe de ser uma das protagonistas! Com isso, posso afirmar que a construção da jornada dos outros dois personagens (ou dos outros pilares do filme), é o elemento narrativo mais interessante de "Era uma vez em… Hollywood", pois é na convergência dessa construção que o filme passa a fazer sentido, mesmo com arcos tão distantes do que será entregue no final. Parece complicado, mas na prática vai fazer todo sentido: Rick Dalton (Leonardo de DiCaprio) é um ator que só interpreta vilões e que se vê estagnado na carreira, o que acaba gerando uma enorme insegurança para ele. Já Cliff Booth (Brad Pitt) é seu dublê e fiel escudeiro, embora tenha uma enorme dificuldade para encontrar trabalho por ter um temperamento, digamos, sincero demais e por carregar o peso de uma história onde teria assassinado sua esposa durante um passeio de barco, é um cara seguro e muito bem resolvido! Os dois, ao lado de Tate, estão inseridos em um contexto onde Hollywood tem o poder absoluto de transformar a vida das pessoas, porém ela cobra seu preço e em diferentes níveis - essa é a crítica que Tarantino faz no filme ao mesmo tempo em que se declara como cineasta pela história da televisão e como suas produções tiveram total importância na ascensão de grandes atores e do cinema como um todo.

Se você espera um festival de pancadaria, tiroteios e muito sangue cenográfico como em outros filmes do diretor, é bem possível que você vá se decepcionar. Como sugeri nos parágrafos anteriores, "Era uma vez em… Hollywood" é um filme focado no personagem, nas suas experiências de vida e, principalmente, na sua forma de encarar as situações "cotidianas" que o roteiro propõe - não que os outros filmes do diretor não tivessem isso, mas posso garantir que aqui eles são mais cirúrgicos, quase um estudo de personalidade, o que deflagra elementos de suspense na mesma proporção que encontramos o drama, a ação e a comédia - reparem em toda sequência onde Rick Dalton encontra Trudi Fraser (Julia Butters) antes de filmar uma cena do piloto da série: existe um diálogo sensacional e depois de contracenar com ela na ficção, o diretor nos entrega todos os elementos acima sem ao menos estereotipar qualquer um dos gêneros - isso é muito Tarantino, porém com a mão menos pesada! A cena onde Cliff Booth resolve conferir se seu antigo amigo, dono do rancho onde a família Manson se instalou, está realmente dormindo; é outro grande exemplo do equilíbrio narrativo que o diretor propõem!

Uma coisa que me chamou muito a atenção são os movimentos de câmera extremamente criativos. A câmera passeia entre um plano e outro de uma forma tão orgânica que muitas vezes achei que existia um corte, quando na verdade era um plano sequência. A fotografia do Robert Richardson (o monstro por trás de JFK, Aviador e Hugo) é algo fora do comum - é ele que dá vida as loucuras criativas do Tarantino desde Kill Bill. Ele merece essa mais essa indicação ao Oscar 2020. Uma curiosidade é que tudo foi realmente filmado em locação, ou seja, as cenas em Los Angeles foram feitas nas ruas e estradas da cidade! Tudo foi adereçado e produzido para nos colocar no final dos anos 60! Tudo está lá, sem fundo verde! Outro elemento que vale a referência é o desenho de som: reparem como o som da televisão (e muitas vezes o próprio texto que sai dela) se encaixa perfeitamente nas cenas que acontecem fora dela. Reparem como a rádio dos carros também ajudam a dar o mood daquela Hollywood como se fosse uma espécie de conto de fadas sendo contada. Aliás, meu amigo, que trilha sonora é essa!!!! Importante você reparar (com muita atenção) como nada que o Tarantino pede para colocar no cenário é gratuito - tudo ajuda a compor o personagem ou a ação que ali vai acontecer. Ele nunca rouba no jogo - reparem em tudo: da comida do cachorro que está no armário da cozinha de Cliff Booth aos objetos na garagem de Rick Dalton.

É claro que, como todo filme do Tarantino, uns vão odiar enquanto outros vão idolatrar, porém eu preciso dizer que "Era uma vez em… Hollywood" é uma aula de narrativa, tanto de roteiro quanto de direção. Talvez o filme onde absolutamente todos os atores estão exatamente no tom certo com seus personagens: do diretor da série ao gerente do cinema. Dos hippies da família Manson ao próprio Bruce Lee. Sem falar, claro, no excelente trabalho do Leonardo de DiCaprio - o melhor trabalho da carreira dele até aqui; junto com a Margot Robbie e com Brad Pitt - não se surpreenda se os três forem indicados no próximo ano! 

Grande filme e do fundo do coração, espero que essa análise ajude na sua experiência ao assistir "Era uma vez em… Hollywood", porque é até compreensível não conhecer algumas histórias que o filme referencia, mas como obra cinematográfica, olha, tudo é quase perfeito! Vale seu play!

Ah, antes de terminar:  existe uma cena pós-créditos onde Ricky Dalton faz um comercial para a marca de cigarros Red Apple. Saiba que essa é a marca fumada pelos personagens de Pulp Fiction, Kill Bill e Os Oito Odiados - ela não existe, mas a brincadeira do Tarantino vale pelo alívio cômico!

Up-date: "Era uma vez em… Hollywood" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Design de Produção e Melhor Ator Coadjuvante!

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Expresso do Amanhã

"Expresso do Amanhã" (Snowpiercer, título original) do diretor coreano vencedor do Oscar 2020, Bong Joon Ho, é uma mistura do seu mais famoso filme, "Parasita" com "Mãe!" do Darren Aronofsky. Só por essas referências já fica fácil entender a razão pela qual "Expresso do Amanhã" precisa ser assistido, além de justificar a quantidade enorme de indicações que o filme levou em Festivais entre os anos de 2013 e 2014 - foram mais de 100.

Nessa adaptação de uma famosa HQ francesa chamada "Le Transperceneige" de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, Bong Joon Ho trás mais uma vez para a discussão vários elementos do capitalismo como a pirâmide de classes e as diferenças sociais que assolam nossa sociedade moderna. Dessa vez o cenário é uma locomotiva que, após a extinção humana decorrente de uma alteração climática catastrófica que transformou a Terra em uma enorme Bola do Gelo, se tornou o único refúgio de uma pequena parcela da humanidade que foi dividida em vagões de acordo com sua classe social. Confira o trailer:

Em um único cenário, cheio de metáforas (como em "Mãe!"), com uma forte e profunda crítica social (como em "Parasita"), "Expresso do Amanhã" é mais um daqueles filmes que nos faz sentir culpa por não ter assistido antes. Muito bem realizado, com um roteiro inteligente e um desenho de produção impecável, o filme é um convite para conhecer o trabalho do genial Bong Joon Ho, além de ser um entretenimento de altíssima qualidade - daqueles que nos tira da zona de conforto e nos faz refletir a cada página do roteiro filmada.

O roteiro escrito por Bong Joon Ho e pelo Kelly Masterson ("Risco Imediato") foi muito feliz na adaptação de uma obra extremamente complexa para apenas duas horas - ao focar na insatisfação de Curtis (Chris Evans), um jovem líder da casta mais miserável da locomotiva, a história equilibra muito bem o drama e a ação de um movimento crescente de revolta, quando Curtis e seus companheiro resolvem invadir os demais vagões na busca por condições melhores de sobrevivência. O interessante é que essa jornada de ascendência social é muito bem traduzida de acordo com a construção do ambiente que representa cada vagão. A delicadeza com que as metáforas são inseridas contrasta com o exagero daquele universo, seja ele alegórico ou no over-acting de alguns personagens como a porta-voz/governanta Mason (Tilda Swinton).

As cenas de violência são um espetáculo à parte, bem como em "Parasita", Bong Joon Ho alterna a ação como se fosse uma apresentação de balé, com movimentos do elenco extremamente organizados, com uma câmera completamente caótica e um conceito visual bem "tarantinesco"! Reparem na cena da luta no túnel: a construção da tensão é tão bem feita, que a própria dificuldade de perceber o que realmente está acontecendo serve como um gatilho emocional impressionante. Aliás, a fotografia do diretor Kyung-pyo Hong ajuda a estabelecer tanto o conceito visual como narrativo do filme, deixando tudo muito bem alinhado - a própria escolha de Bong Joon Ho em alternar planos mais abertos para estabelecer a posição social dos personagens, com planos fechados dos momentos de auto-analise do protagonista, ajudam a entender desde a força da discussão social até como ela e o poder podem corromper o ser humano.

Interessante uma frase que li ao pesquisar sobre a profundidade do texto da HQ que claramente guiou a direção do filme e muito me impressionou: "A história funciona como um verdadeiro tubo de ensaio em que os autores analisam toda a humanidade, testando suas capacidades de organização, justiça e relacionamento, e a passagem do protagonista, vagão por vagão, é uma pintura fiel da sociedade estratificada. Com um enredo instigante e violento, repleto de ação e escárnio"! Eu diria que essa sentença resume perfeitamente o que você está prestes a assistir, mas ainda assim cabe um complemento: "Expresso do Amanhã" é um filme corajoso, indigesto e indispensável!

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"Expresso do Amanhã" (Snowpiercer, título original) do diretor coreano vencedor do Oscar 2020, Bong Joon Ho, é uma mistura do seu mais famoso filme, "Parasita" com "Mãe!" do Darren Aronofsky. Só por essas referências já fica fácil entender a razão pela qual "Expresso do Amanhã" precisa ser assistido, além de justificar a quantidade enorme de indicações que o filme levou em Festivais entre os anos de 2013 e 2014 - foram mais de 100.

Nessa adaptação de uma famosa HQ francesa chamada "Le Transperceneige" de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, Bong Joon Ho trás mais uma vez para a discussão vários elementos do capitalismo como a pirâmide de classes e as diferenças sociais que assolam nossa sociedade moderna. Dessa vez o cenário é uma locomotiva que, após a extinção humana decorrente de uma alteração climática catastrófica que transformou a Terra em uma enorme Bola do Gelo, se tornou o único refúgio de uma pequena parcela da humanidade que foi dividida em vagões de acordo com sua classe social. Confira o trailer:

Em um único cenário, cheio de metáforas (como em "Mãe!"), com uma forte e profunda crítica social (como em "Parasita"), "Expresso do Amanhã" é mais um daqueles filmes que nos faz sentir culpa por não ter assistido antes. Muito bem realizado, com um roteiro inteligente e um desenho de produção impecável, o filme é um convite para conhecer o trabalho do genial Bong Joon Ho, além de ser um entretenimento de altíssima qualidade - daqueles que nos tira da zona de conforto e nos faz refletir a cada página do roteiro filmada.

O roteiro escrito por Bong Joon Ho e pelo Kelly Masterson ("Risco Imediato") foi muito feliz na adaptação de uma obra extremamente complexa para apenas duas horas - ao focar na insatisfação de Curtis (Chris Evans), um jovem líder da casta mais miserável da locomotiva, a história equilibra muito bem o drama e a ação de um movimento crescente de revolta, quando Curtis e seus companheiro resolvem invadir os demais vagões na busca por condições melhores de sobrevivência. O interessante é que essa jornada de ascendência social é muito bem traduzida de acordo com a construção do ambiente que representa cada vagão. A delicadeza com que as metáforas são inseridas contrasta com o exagero daquele universo, seja ele alegórico ou no over-acting de alguns personagens como a porta-voz/governanta Mason (Tilda Swinton).

As cenas de violência são um espetáculo à parte, bem como em "Parasita", Bong Joon Ho alterna a ação como se fosse uma apresentação de balé, com movimentos do elenco extremamente organizados, com uma câmera completamente caótica e um conceito visual bem "tarantinesco"! Reparem na cena da luta no túnel: a construção da tensão é tão bem feita, que a própria dificuldade de perceber o que realmente está acontecendo serve como um gatilho emocional impressionante. Aliás, a fotografia do diretor Kyung-pyo Hong ajuda a estabelecer tanto o conceito visual como narrativo do filme, deixando tudo muito bem alinhado - a própria escolha de Bong Joon Ho em alternar planos mais abertos para estabelecer a posição social dos personagens, com planos fechados dos momentos de auto-analise do protagonista, ajudam a entender desde a força da discussão social até como ela e o poder podem corromper o ser humano.

Interessante uma frase que li ao pesquisar sobre a profundidade do texto da HQ que claramente guiou a direção do filme e muito me impressionou: "A história funciona como um verdadeiro tubo de ensaio em que os autores analisam toda a humanidade, testando suas capacidades de organização, justiça e relacionamento, e a passagem do protagonista, vagão por vagão, é uma pintura fiel da sociedade estratificada. Com um enredo instigante e violento, repleto de ação e escárnio"! Eu diria que essa sentença resume perfeitamente o que você está prestes a assistir, mas ainda assim cabe um complemento: "Expresso do Amanhã" é um filme corajoso, indigesto e indispensável!

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Invincible

Antes de mais nada é preciso avisar: "Invincible" será uma das animações mais violentas que você vai assistir! A surpreendente série da Prime Vídeo pinta, ou melhor, mancha de vermelho duas histórias bastante tradicionais: a "jornada do herói" e o ‘coming of age’.

Nesse universo, vários seres com superpoderes habitam a Terra (e outros planetas). Todos os heróis e vilões que você conhece parecem ter uma ‘versão beta’ em "Invincible". E isso não é ruim. Não mesmo! Os personagens possuem motivações convincentes e até dúbias. Há várias subtramas acontecendo ao mesmo tempo e, felizmente, o roteiro consegue costura-las organicamente.

A série adapta os HQs de Robert Kirkman e narra a vida de um jovem de 17 anos que é filho de um poderoso alienígena com uma humana, Mark Grayson. O adolescente ainda está aprendendo a usar seus poderes quando se vê frente a ameaças como invasões extraterrestres e vilões sádicos. E, enquanto tenta salvar o dia e seguir os passos de seu pai, um famoso super-herói, ele também tenta sobreviver ao seu processo de amadurecimento como um ser "quase" humano. Confira o trailer:

A série não tem uma definição clara de público alvo. A violência explícita e o mistério sombrio contrastam com um drama juvenil e diálogos simplórios (pra não dizer bobos). Em compensação, o humor afiado funciona bem. O espetacular elenco de vozes que vai de J.K. Simmons até Zachary Quinto, passando por Sandra Oh, Steven Yeun, Zazie Beetz, Gillian Jacobs, entre outros; eleva (ainda mais) o nível de carisma dos personagens. Por isso, fica a recomendação: assista no idioma original!

Esteticamente, a animação 2D se aproxima menos de clássicos japoneses (como "Akira") e mais de séries juvenis (como "X-Men: Evolution") - o conceito estético segue com grande fidelidade os traços originais de Ryan Otley e Cory Walker dos HQs, com a atmosfera e o tom bastante semelhantes às histórias publicadas pela Image Comics em 144 edições entre 2003 e 2018. Também por isso, a violência é ainda mais impactante!

A duração dos episódios poderia ser menor? Sim. Apesar disso, a carga dramática é crescente na segunda metade da temporada. Os dois últimos episódios, especialmente, são uma sequência de socos no estômago – em todos os sentidos.

"Invincible" traz um frescor sangrento ao já saturado universo dos super-heróis. Para Mark Grayson, testemunhar verdades inconvenientes e a fragilidade da vida humana são os golpes que mais machucam. Vale a pena!

Escrito por Ricelli Ribeiro com Edição de André Siqueira - uma parceria @dicastreaming 

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Antes de mais nada é preciso avisar: "Invincible" será uma das animações mais violentas que você vai assistir! A surpreendente série da Prime Vídeo pinta, ou melhor, mancha de vermelho duas histórias bastante tradicionais: a "jornada do herói" e o ‘coming of age’.

Nesse universo, vários seres com superpoderes habitam a Terra (e outros planetas). Todos os heróis e vilões que você conhece parecem ter uma ‘versão beta’ em "Invincible". E isso não é ruim. Não mesmo! Os personagens possuem motivações convincentes e até dúbias. Há várias subtramas acontecendo ao mesmo tempo e, felizmente, o roteiro consegue costura-las organicamente.

A série adapta os HQs de Robert Kirkman e narra a vida de um jovem de 17 anos que é filho de um poderoso alienígena com uma humana, Mark Grayson. O adolescente ainda está aprendendo a usar seus poderes quando se vê frente a ameaças como invasões extraterrestres e vilões sádicos. E, enquanto tenta salvar o dia e seguir os passos de seu pai, um famoso super-herói, ele também tenta sobreviver ao seu processo de amadurecimento como um ser "quase" humano. Confira o trailer:

A série não tem uma definição clara de público alvo. A violência explícita e o mistério sombrio contrastam com um drama juvenil e diálogos simplórios (pra não dizer bobos). Em compensação, o humor afiado funciona bem. O espetacular elenco de vozes que vai de J.K. Simmons até Zachary Quinto, passando por Sandra Oh, Steven Yeun, Zazie Beetz, Gillian Jacobs, entre outros; eleva (ainda mais) o nível de carisma dos personagens. Por isso, fica a recomendação: assista no idioma original!

Esteticamente, a animação 2D se aproxima menos de clássicos japoneses (como "Akira") e mais de séries juvenis (como "X-Men: Evolution") - o conceito estético segue com grande fidelidade os traços originais de Ryan Otley e Cory Walker dos HQs, com a atmosfera e o tom bastante semelhantes às histórias publicadas pela Image Comics em 144 edições entre 2003 e 2018. Também por isso, a violência é ainda mais impactante!

A duração dos episódios poderia ser menor? Sim. Apesar disso, a carga dramática é crescente na segunda metade da temporada. Os dois últimos episódios, especialmente, são uma sequência de socos no estômago – em todos os sentidos.

"Invincible" traz um frescor sangrento ao já saturado universo dos super-heróis. Para Mark Grayson, testemunhar verdades inconvenientes e a fragilidade da vida humana são os golpes que mais machucam. Vale a pena!

Escrito por Ricelli Ribeiro com Edição de André Siqueira - uma parceria @dicastreaming 

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