Viu Review - Invocação do Mal 3 - a reinvenção da franquia a partir de dados?

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Segunda, 07 Junho 2021 13:23

Invocação do Mal 3 - a reinvenção da franquia a partir de dados? Featured

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A história verídica que inspirou "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio", novo filme de uma das franquias de suspense mais aclamadas do cinema, gira em torno do primeiro americano que alegou em tribunal estar possuído e, portanto, não poderia responder por seus atos. Entenda a história:

Na vida real, o casal de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, interpretados na ficção por Patrick Wilson e Vera Farmiga, realizou o exorcismo em um jovem de 11 anos chamado David Glatzel.


O namorado de Debbie, irmã mais velha do menino possuído, Arne Johnson, havia se mudado para a casa da família para ajudá-los durante o apavorante processo. Durante um dos vários exorcismos que foram realizados, Arne, num ato desesperado, pediu ao demônio para que deixasse o corpo do menino e o possuísse no lugar dele. Ninguém ligou muito para o gesto de Arne na ocasião. Porém, passado um tempo, em fevereiro de 1981, Arne acabou por matar a facadas Alan Bono, chefe de Debbie e proprietário do imóvel onde os dois moravam, após Bono ter tido um comportamento inadequado com com a prima dela de nove anos, Mary.

Ed e Lorraine Warren

O que seria um julgamento por homicídio (sem aparente conexão com o exorcismo do menino David Glatzel), tomou proporções maiores por conta do argumento de defesa de Arne Johnson que seria o dele ter sido possuído por um demônio que o levou a cometer aquele ato. O caso ganhou a atenção da mídia e ficou conhecido como o caso "Devil Made Me Do It" (A Ordem do Demônio), que, inclusive, foi incorporado ao título oficial do novo filme. Foi a primeira vez que isto aconteceu na história da justiça americana, por isso o caso tornou-se tão famoso.


A alegação da possessão obviamente foi rejeitada pelo juiz. Arne Johnson foi condenado a uma pena de 10 a 20 anos de prisão, apesar de só ter cumprido cinco, por ter tido bom comportamento durante o tempo que esteve preso. Ele se casou com Debbie Glatzel e, após ter deixado a prisão, os dois levaram uma vida comum e anônima.

Arne Johnson e Debbie Glatzel (2006)

O que torna o filme “Invocação do Mal 3”, dirigido por Michael Chaves ("A Maldição da Chorona"), diferente dos outros outros filmes da franquia – "Invocação do Mal" (2013) e "Invocação do Mal 2"(2016), ambos dirigidos por James Wan- é justamente por abordar um caso real de homicídio e não apenas em se limitar nos elementos clássicos de terror/suspense e de casa assombrada. Em "Invocação do Mal 3", quando Arne (Ruairi O'Connor) é condenado pelo assassinato de Bruno (Ronnie Gene Blevins), Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) são chamados para estudar o caso e iniciam uma investigação para provar que isso realmente teria acontecido. Contudo, a busca por respostas os leva "a uma sinistra e mortal descoberta", confira o trailer:

Mas qual a possível razão para inserir elementos de "true crime" em uma estabelecida franquia de suspense?

Há algum (bom) tempo, estamos acompanhando uma tendência no desenvolvimento de projetos "True Crime" com toques de suspense em níveis variados dentro de uma narrativa. Recentemente a própria Netflix trouxe para o seu catálogo: "Os Filhos de Sam: Loucura e Conspiração""Mistério e Morte no Hotel Cecil" e "Night Stalker" seguindo esse padrão. Ao cruzar essa tendência com os dados que monitoramos pela Viu Review, através da nossa ferramenta VIEWER, encontramos respostas interessantes: para os assinantes de streaming, atualmente, três elementos narrativos aparecem com muita evidência: investigação, crime e fatos reais. Já o gênero "Documentário" (embora em crescimento) ainda não aparece entre os favoritos nesse recorte, como Drama e Suspense.

Sendo assim, uma ótima estratégia no desenvolvimento de conteúdo original, certamente, seriam os filmes ou séries de ficção com uma linha mais "True Crime" (podendo ser um caso real, claro, ou até algo bem próximo da realidade). Indo além e ao unir o Drama com Suspense nessa receita, fica ainda mais fácil perceber como impactar o público com menor chance de fracasso - "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" estreou esta semana nos EUA unindo gêneros e surfando na onda do crime real e com isso encabeçou a bilheteria do país, superando a arrecadação do case de marketing "Um Lugar Silencioso 2". Em seu primeiro final de semana, o terceiro filme da franquia acumulou US$ 24 milhões, enquanto a sequência de "Um Lugar Silencioso" arrecadou US$ 19,5 milhões.

Veja como essa conjunção de fatores impactam no interesse dos assinantes de streaming da HBO - onde "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" estará presente:

Não é por acaso que a HBO vem conquistando cada vez mais assinantes graças aos títulos que ela produz unindo gêneros e sub-gêneros com tanta competência. Listo apenas os recentes:  "The third day", "Eu Terei Sumido na Escuridão" e "Outsider" com um elementos de suspense (e até sobrenatural) bastante presente, enquanto "Mare of Easttown" e "The Undoing" traz uma levada mais "true crime" para uma narrativa de investigação, se baseando em livros de sucesso - e o já anunciado "Love and Death" com Elizabeth Olsen que segue essa mesma linha.

Se voltarmos para a Netflix, focando especificamente em "true crime", o mais recente sucesso da Netflix é a série mexicana "Quem Matou Sara?" que, com menos de 1 semana de exibição, já foi renovada para a 2ª temporada e traz muito desses elementos que comentamos acima. E não se trata de um caso isolado já que a Netflix lança por mês, pelo menos 1 título de destaque (ficção ou documentário) onde o ponto de partida da narrativa é um crime (real ou realista). Olhando em retrospectiva, listamos alguns desses lançamentos:

- maio: Os Filhos de Sam: Loucura e Conspiração

- abril: O Paraíso e a Serpente e  Por Que Você me Matou? 

- março: O Caso Wesphael, Quem Matou Sara? e O Falsificador Mórmon 

- fevereiro: Mistério e Morte no Hotel Cecil 

- janeiro: Night Stalker

Agora, cruzando com outros dados que o VIEWER disponibiliza, fiz questão de marcar em vermelho alguns elementos que, combinados, são facilmente encontrados em todos os conteúdos que listei.

Na imagem também é possível entender o impacto que esses elementos tem em assinantes de outros serviços do mercado (em verde) e então comparar com os assinantes da Netflix (em rosa). Conseguimos fazer isso com todos os serviços de streaming que estão na Viu Review e assim entender exatamente quais movimentos devemos observar - sejam os gaps de cada catálogo, as demandas reprimidas dos assinantes e as tendências para produção ou aquisição de conteúdo que se encaixem no desejo de quem dá o play.

Se antes existia o mito que a Netflix determinava o projeto que iria produzir a partir dos dados que recolhia dos assinantes, hoje o mercado está pronto para transformar muito mais informações em conteúdos cada vez mais relevantes e sem a limitação de uma única plataforma.

Esse texto foi escrito em parceria com André Siqueira - Head de Conteúdo e Inovação da Viu Review

Read 83 times Last modified on Segunda, 14 Junho 2021 14:20